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Vencedora do prêmio Asian Literary vem ao Brasil

Park So-nyo passou a vida no interior da Coreia do Sul em meio a algodoais e
arrozais. Incansável, criava bicho-da-seda, cuidava da lavoura, fermentava malte
e vendia lâmpada usada e pote velho para ajudar na renda familiar. Viveu para os
filhos, e mesmo quando eles já haviam saído de casa, ela continuou cozinhando e
armazenando comida, que ela própria se incumbia de levar para eles na capital.
Por isso, a visão da mãe esperando numa praça movimentada, com a bagagem alocada
sobre a cabeça, pimentas saindo dos bolsos e berinjelas amarradas às pernas não
era estranha ao filho Hyong-chol, seu preferido.

Essa era, bem na
superfície, a mulher que desapareceu na estação de metrô de Seul aos 69 anos e a
protagonista de Por Favor, Cuide da Mamãe (Intrínseca). O livro que
lançou internacionalmente a sul-coreana Kyung-Sook Shin e está sendo publicada
em 32 países ganhou, nesta quinta-feira, 15, o Man Asian Literary Prize. Em
abril, a autora vem ao País para participar da 1ª Bienal Brasil do Livro e da
Leitura que será realizada em Brasília de 14 a 23 de abril.

Shin é a
primeira mulher a vencê-lo, e esta é também a estreia de um autor sul-coreano na
premiação que está em sua 5.ª edição e dá ao vencedor US$ 30 mil. A próxima
aposta editorial será I’ll Be Right There, em processo de tradução para
o inglês. Aos 49 anos, ela tem ainda outros 5 romances – deve terminar de
escrever mais um até o fim do ano, 7 coletâneas de contos e 3 livros de ensaios
lançados em seu país.

Quando a história começa, Park So-nyo está
desaparecida há uma semana e os filhos estão brigando para escrever o folheto
que seria distribuído em Seul. Mamãe, como é chamada durante todo o livro, tinha
ido do interior à capital para comemorar o aniversário ao lado dos filhos tão
ocupados. Ao chegar, o marido entra no vagão do metrô e só minutos depois, já em
outra estação, percebe que ela não está lá. Ninguém nunca mais a
vê.

Começa então o processo de lamento, culpa, remorso e luto contado a
partir do ponto de vista da filha mais nova, escritora de sucesso que nunca se
preocupou em ler seus livros para a mãe analfabeta, do primogênito, que teve uma
educação superior a de seus irmãos e se mostrou uma promessa não cumprida, e do
marido que sempre a negligenciou. O capítulo que amarra a história é contado
pela própria Mamãe – e o único em primeira pessoa. Os outros narradores se
dirigem diretamente aos personagens tratando-os por “você”, apontando falhas em
suas relações com a desaparecida e revelando segredos impensáveis.

“Tive o cuidado de reservar o pronome “eu” para a personagem da mãe porque uma vez que uma mulher se transforma em mãe ela raramente tem tempo de pensar nela mesma
como “eu”. Ao colocar os familiares para falar sobre ela, conseguimos entender o
tipo de vida que Park So-nyo vivia”, conta Shin. Para
ela, o livro é sobre como, ao perder de repente nossa mãe, percebemos quanto
dependemos dela e como passamos a vida sem reconhecer sua verdadeira
importância. “O romance também tenta recuperar o que pode ter sido perdido no
processo de nos tornarmos homens modernos”, diz.

Escrever esse livro
foi, de certa forma, um acerto de contas entre a autora e sua própria mãe –
também uma mulher que vive no campo. E isso não exatamente por brigas passadas,
mas porque era para agradá-la que ela lia. E porque leu durante a infância
começou a escrever. “Antes de eu completar 10 anos já sonhava em ser escritora.
Sou um produto da influência da minha mãe.” Aos 16, durante uma viagem de trem,
prometeu para si mesma que dedicaria um livro a ela.

Trata-se de uma
ficção, mas Shin não dispensa a ideia de deixar uma mensagem ao leitor. “Quando
vejo alguém triste, sinto forte compulsão em escrever. Quero que meu trabalho
tenha uma função materna de estar a postos por quem sofre. Meus temas também
incluem respeito e compaixão pela vida e espero que depois de ler meus livros os
leitores sejam tomados pelo desejo de lembrar e rever aquele alguém que havia
sido esquecido.”

Fonte Estadão

 

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