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Um livro, um desabafo

Uma cadeira de rodas lentamente sai do quarto para a sala de estar. Sobre ela, uma mulher de sorriso farto, conservando a beleza da juventude estampada na capa do livro “Sobrevivi…Posso contar”. Símbolo da luta em defesa da mulher no Brasil, a cearense Maria da Penha lança amanhã o livro de memórias, 16 anos após sua primeira edição, cuja repercussão chegou aos ouvidos de instituições internacionais, abrindo caminhos para a criação da lei que leva seu nome. Nesta entrevista, ela fala do preconceito enfrentado e relembra o primeiro passeio com as filhas, depois que saiu do cárcere privado

A primeira edição do livro foi lançada quando Marco Antônio, seu ex-marido, ainda não havia sido condenado…

Ele já tinha sido condenado, mas não tinha sido preso. Por conta de recurso, ficou em liberdade. Isso aconteceu em 1991, quando ocorreu o primeiro julgamento. Em 1994, o livro foi lançado e, dois anos depois, houve um novo julgamento e ele foi novamente condenado, mas novamente saiu do fórum em liberdade por conta de recursos.

Foi muita coragem, não?

Não. Pra mim foi uma maneira que eu encontrei de me ajudar. A intenção do livro era fazer com que a sociedade ficasse estarrecida diante de tantas provas, de tantos motivos, que existiam para ele ser punido e, mesmo assim, foram usados subterfúgios, recursos da justiça pra que ele não pagasse pelo crime que praticou. O livro serviu pra eu exorcizar toda a minha revolta, porque eu trouxe o processo para dentro dele, mostrando a periculosidade da pessoa, os artifícios que ele empregou, a justiça que foi cega e a vítima que ficou órfã do Estado.

O que essa edição tem de novidade em relação à outra?

Tem a minha história e alguma coisa em relação a tópicos da lei, o prefácio de pessoas das entidades que denunciaram comigo na OEA, que me ajudaram nessa luta. Então não foi só uma questão de coragem – foi uma questão de coragem, mas também de muita persistência.

O título “Sobrevivi… Posso contar” soa como um desabafo, um alívio, e a foto da capa dá essa impressão que você encarou tudo de frente. É um projeto gráfico muito bonito. Você teve essa intenção de que falei?

Na verdade a primeira capa é da minha irmã, Elizabeth, que é artista plástica. Convivendo comigo, ela criou aquilo e eu achei interessante porque num primeiro momento mostra as minhas pegadas na areia e depois eu não estou mais caminhando, eu estou suspensa numa cadeira de rodas. Mas esse momento de agora foi tudo por conta da editora, que acho que teve muito bom gosto, sensibilidade, e eu estou muito satisfeita. Essa foi uma produção independente, fiz com os meus próprios recursos, quero que você registre a parceria do Cleber Nogueira, pessoa importantíssima na construção do livro. Todas as fotos que estão no livro são do meu arquivo, são as fotos que eu achei interessante colocar, que registram minha luta. Quer dizer, não tem nada depois de que o livro foi escrito. Inclusive a última, em que estou com as minhas filhas, foi o primeiro passeio depois que saí do cárcere privado, acredito que no mês de outubro de 83. Foi um dia de domingo, no Parque do Rio Cocó. A que está atrás de mim é a minha irmã caçula, a Valéria. Foi uma sensação de liberdade, de não tá mais coagida a me comportar, a falar, a não falar.

Em que locais esse livro chegou na época? Qual foi a reação das pessoas?

Ele foi vendido informalmente através dos amigos, da família e em locais que pudessem me servir de apoio, onde meu grito repercutisse, tanto que alcançou seu objetivo, chegando a conhecimento da Cejil, que é o Centro pela Justiça e o Direito Internacional que, com a parceria da Cladem (Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher), me fez o convite para denunciar o Brasil na OEA.

Por que resolveu lançar o livro agora. Algum motivo?

Desde que foi sancionada a lei, não tenho mais vida própria. Não posso me recusar a divulgá-la. Desde 2007, 2008, pessoas daqui e de outros estados vinham solicitando o livro e achei importante mostrar como foi o processo de surgimento da lei. Neste livro, pode-se ter uma ideia dos horrores do meu caso, que não é um caso isolado, mas algo que atinge a sociedade brasileira, independente da condição financeira.

Você descreve com bastante detalhes cada momento que passou, inclusive a outra metade do livro tem informações, documentos, fac-símiles de jornais. Isso foi uma forma que você encontrou de não chamar tanta atenção para a “tragédia” e enfocar mais a questão da violência contra a mulher de uma forma mais geral?

Na época, eu nem sabia que tinha sido vítima de violência doméstica: esse nome não existia. Não existia delegacia da mulher. Se uma mulher fosse agredida, o máximo que se dizia é que era mal casada. Até a sanção da lei, eu era vista como uma mulher que deveria ter merecido levar um tiro do marido. Se uma mulher fizesse uma denúncia ao delegado, ele pedia pra que se acalmasse e voltasse outra hora com a cabeça fresca.

Em nenhum momento do livro você chama Marco de “bandido” ou faz julgamentos desse gênero…

Eu não podia escrever um livro só machucando o outro. Tinha que colocar os fatos reais pra que as pessoas entendessem que não era algo vingativo, mas uma questão de direito, um direito que eu não tinha. Sempre quis preservar minhas filhas. No primeiro livro não coloquei o nome dele completo, colocava Marco Antônio H. Viveros, porque o Herédia era o sobrenome que elas usavam. Também procuro preservar a imagem delas, tanto que só saíram neste livro na foto quando ainda pequenas. Mas hoje elas assumiram a minha luta também no Instituto Maria da Penha, que criamos no ano passado. Agora não têm mais a possibilidade de serem machucadas. São donas de si.

Demorou 19 anos e seis meses para a justiça ser feita, há apenas seis meses da prescrição do crime. Mudou muita coisa com relação à punição dos que praticam violência contra a mulher?

Mudou muita coisa, apesar do pouco tempo da sanção da lei e a cultura machista, que também atrapalha. Há estados mais avançados com relação às políticas públicas em defesa da mulher e outros nem tanto. A gente pode dizer que as pessoas estão mais informadas e por isso mais mulheres estão denunciando, não que a violência tenha aumentado. No meu Estado, o primeiro e único juizado da mulher foi criado um ano e cinco meses depois da sanção da lei. Já o Mato Grosso saiu na frente. Toda mulher e todo homem deve ficar contente com a lei, que representa a garantia de um futuro sem violência. Não é uma lei contra os homens, mas para punir os homens agressores. O que nós lutamos agora é para que haja uma delegacia da mulher em cada regional, que a população carente se conscientize e também denuncie o Estado, quando por exemplo o delegado não atende, pedindo que vá a uma delegacia da mulher, quando se sabe que ele tem condições de aplicar a lei.

Apesar de sua decepção, você deixa transparecer no livro o quanto acredita no amor, quando diz “haverá algo mais belo e humano que um casal?”…

Por acreditar nisso, minhas filhas nunca foram criadas com a ideia que casamento não presta. É ótimo, desde que você seja respeitada. Tanto é que todas são casadas e tenho três netos.

Livro

Sobrevivi… Posso contar

Lançamento do livro amanhã, às 19h30, no Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154, Aldeota).
Contato: (85) 3224-9780

SÍRIA MAPURUNGA
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste

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