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Traços e troças é relançado pela editora Armazém da Cultura.

“Traços e Troças [CHRONICA VERMELHA] Leitura Quente” – Maceió 1899.
Pronto. Apenas isso na estampa da pequena capa do livro. Nem indicação do autor nem da tipografia de origem. Como se lançado ao vento, o romance, de título curioso, Traços e Troças: crônica vermelha – leitura quente, veio ao mundo, mais especificamente ao mundo maceioense das Alagoas.
Mais tarde, a partir de “pistas” em sua literatura, em sua atitude política e ideológica, o jornalista Pedro Nolasco Maciel passou a ser considerado, por historiadores e críticos, o “responsável pela criança” que, nesse caso, já nasceu andando, melhor, dançando.
Mas, afinal, o que nos traz de novo esse autor? Para tentar saciar a curiosidade dos seus novos leitores, irei me valer dos “Traços Biobliográficos”, assinados por Moacir Medeiros de Sant’Ana, historiador, membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, publicados como introdução à segunda edição da obra, pelo Departamento Estadual da Cultura, cujo diretor, à época, 1964, era o jornalista Arnoldo Jambo, que também assina texto que antecede a referida edição, pela qual nos guiamos na condução editorial desta.
Pedro Nolasco Maciel nasceu em Maceió, Alagoas, em 1861. Filho de Raimundo José de Sant’Ana e de d.ª Silvina Ferreira Guimarães, iniciou-se no trabalho de tipógrafo no Diário de Alagoas.
Jornalista, um dos mais atuantes de seu tempo, conforme se pode observar pelas diversas atividades exercidas e pelo seu legado literário e jornalístico, foi um dos fundadores e redatores do Gutenberg, órgão da Associação Tipográfica de Socorros Mútuos, veículo mais veemente na difusão das ideias republicanas em seu tempo — surgiu em janeiro de 1881 —, e, posteriormente, administrador do Gazeta de Notícias, surgido em 1879.
Em fevereiro de 1886, Nolasco Maciel publicou, em volume único, pela Tipografia Mercantil, o romance A Filha do Barão — com o também curioso subtítulo “estudos românticos e históricos” —, que, segundo estudiosos de sua obra, a estética, peculiaridades e estilo, trazem semelhanças que lhe confirmam a autoria de Traços e Troças. A Filha do Barão, considerado o primeiro romance de costumes da sociedade alagoana, foi publicado, originalmente, em forma de folhetins, ou seja, em fragmentos veiculados no Diário das Alagoas, a partir de 20 de novembro de 1885, sob a assinatura de iniciais “M.P.N.”
Em 1887, ano em que era redator do Tribuna do Povo, outra produção: Estilhaços: produções literárias e sobre política. Em 1888, ano de publicação de Conferência Pública, colaborava com o semanário Lâmpada.
Nos últimos anos da monarquia, os movimentos abolicionistas e republicanos chegaram à Alagoas, conquistando adeptos. Dentre eles, o Pedro Nolasco, da Sociedade Libertadora Alagoana, fundada em 28 de setembro de 1881. Jornalistas, intelectuais, professores influenciavam a adesão de jovens à campanha da abolição e da república, campanha esta divulgada pelo Centro Republicano Federalista, pelo Clube Federal Republicano e Centro Popular Republicano Maceioense.
Nolasco era também afiliado ao Club Literário José Bonifácio, onde exerceu a função de vice-presidente. Além dessas, participou de outras associações e, dentre elas, foi orador do Montepio dos Artistas Alagoanos.
Em 3 de janeiro de 1889 foi nomeado carteiro interino no Departamento de Correios e Telégrafos e, em abril, foi efetivado. Em 1890 seria promovido a 2º oficial, sendo, entretanto, exonerado das funções em 1903.
Em 1891, publicou Galeria de Alagoanos Ilustres ou Subsídios à História das Alagoas, e, em 1892, o Indicador Postal. Em 1893, sob o pseudônimo de “Maceiolino”, escreveu para O Momento.
Em 1899 colaborou com Constelação, e, mais tarde, em 1908, com O Popular.
Foi em 1899 que publicou Traços e Troças. O motivo do anonimato do autor, assim como o da origem tipográfica, pode ser compreendido, a priori, pelo viés da segurança pessoal, embora essa seja apenas uma hipótese. O fato é que, devido às características de seu estilo, dentre elas o uso de descrições de lugares e citação de personagens reais em meio a sua ficção, além da forma narrativa, atribuíram-lhe a autoria da obra — na qual, ele mesmo figura como um personagem.
E do que trata Traços e Troças?
Arnoldo Jambo supõe que o subtítulo “crônica vermelha” foi “concebido com o propósito de caracterizar o livro como coisa não recomendável para certo gênero de pessoas puras ou ainda em formação”. Continua, sobre a obra: “Um quadro de costumes onde o bulício preguiçoso e os preconceitos provincianos se fixam como estereotipando figuras de ‘croizé’, fraques pintalgados de caspas, barbas e bigodes hirsutos percorrendo velhas e incertas ruas maceioenses, sob casas de biqueiras e sobre calçadas irregulares, cruzando de quando em quando com matronas severas, tímidas ou mexeriqueiras, todas atufadas de panos desde o queixo até a ponta dos borzeguins de camurça. E por entre vestes e bisonhas aparências, em cada figura, um tipo popular daqueles dias: o português que tocava cavaquinho — e de cujo instrumento tomou o nome toda a sua descendência —, um barbeiro, um livreiro, um jogador de bilhar, um mestre de banda de música, um leiloeiro, um comerciante de tecidos, um alferes, um coronel comandante, um veterano do Paraguai, um condutor de trens, carteiros, amanuenses, engraxates, magistrados, sacerdotes, médicos, jornalistas, tribunos, vivendo todos aquela vidinha miúda, imposta pelo acanhado do meio, pelo atraso e pobreza material e, sobretudo, policiada pela rígida moral do catecismo dominante.”
Afirma Félix Lima Júnior, na apresentação à segunda edição de Traços e Troças, que Arnoldo Jambo escrevera no Jornal de Alagoas, em 1962, sob o título “Romance apócrifo em Maceió do passado”, o desconhecimento por parte dos que fizeram e dos que fazem a literatura alagoana dessa experiência de romance em Maceió.
De fato, o núcleo principal da história, que se passa no período de Belle Époque, é composto pela trama romântica de Manoel, jovem trabalhador, ingênuo e sério, completamente apaixonado — “estava no céu” — e iludido pelos “dentes alvos e as faces rosadas, levemente caiadas a ‘poudre-riz’” de Zulmira, na verdade uma “pimenta, menina quente, irrequieta e mal-educada”. Ao paralelo, Juquinha, um ex-namorado e amante, homem forte, sem-modos — o que parecia atrair os encantos da moça —, caixeiro do Centro Comercial, e a d.ª Maria, mãe de Zulmira, mulher ambiciosa e alcoviteira, “cínica […] que arreganhava a boca sem dentes como um buraco de morcegos nas catacumbas do cemitério velho da Viçosa”, atenta na busca de um futuro de segurança para si, por meio de bom compromisso da filha, sendo cúmplice de diversas artimanhas polvilhadas no enredo de encontros, desencontros e reencontros em Traços e Troças.
Um dia, após passar por desventuras, “achado dentro do mangue, roído de mosquitos”, Manoel encontra Serafim, amigo do Juquinha, a revelar, com galhofa, a triste sina do noivo de uma “criatura endiabrada e tentadora”, muito bela, que exibia desrespeitosamente em uma fotografia. No momento, Manoel, tomado de vergonha e de ira, reconhecera na foto a figura de sua amada Zulmira. A princípio, como todo apaixonado, procurou motivos para entendê-la e passou a delegar toda a culpa da moça àquela mãe horrorosa da menina. Conclui: “A sociedade é corrupta. Não pergunta onde se foi ver a riqueza, inda mesmo que tenha certeza de sua má procedência”. Mais tarde, desperta: “Zulmira, embora formosa, não era mais do que uma caveira bem vestida”.
Aparentemente, a dúvida plantada no coração de Manoel é o estopim da trama que passa a desenrolar-se mais rápida e conflituosamente, e é em suas mãos que se coloca o destino da história. Por outro lado, o personagem Zulmira cresce, evolui no texto de forma surpreendente, podendo se equiparar às heroínas de outros grandes perfis clássicos da literatura.
A história carrega uma crítica à sociedade da época, passeando pelos cantos mais esquecidos do meretrício, do brejo, da podridão, passando pela falácia e pelos joguinhos de faz de conta de vida real, geralmente, denominados de “novelescos”. O final é envolvente.
Nolasco Maciel, em Traços e Troças, descreve cada detalhe de sua cidade, o que enriquece a obra, inclusive, como fonte de referência para estudos históricos e de costumes no seu recorte de tempo em Alagoas, ora em tela: os bondes, os estabelecimentos comerciais, as repartições, os prédios, bilhares, logradouros, as ruas, as travessas, os arrabaldes, as igrejas, os quartéis, os hábitos, os modos de linguagem, fatos históricos — como a deposição do governador Besouro, a Cabanada, a varíola que dizimou os “escravizados” em 1888 —, os toilettes, os costumes provincianos – saraus, pastoris, festas, serenatas, comemorações, etc. – e, envolvidos na trama, personagens reais, políticos, intelectuais, abolicionistas, tipos populares, comerciantes, artistas, identificados e descritos com a precisão das notas do historiador Félix Lima Júnior, que tivemos o prazer de apresentar nesta edição, graças à gentileza da autorização de Cláudio Fernando Oiticica de Lima, seu filho.
Em outubro de 1908, em A Tribuna, Nolasco publicaria seu Resumo da História de Alagoas para Uso dos Incipientes, e, ao final de abril de 1909, publicou a novela Japy-Açara. Também em forma de folhetins deixou a novela Os Camunhenques e o História de Alagoas, compêndio de cunho histórico. Colaborava com A Tribuna desde 1896, no qual escrevia a seção “A Lápis”.
Afirma Moacir Medeiros de Sant’Ana que, na sua última fase de existência, Nolasco “entregou-se à boêmia”.
Parecia calar-se, então, nas Alagoas, aos seis dias de dezembro de 1909, e com apenas 48 anos, a voz de Pedro Nolasco Maciel. Sua literatura quente, a sua crônica vermelha, entretanto, rompeu as barreiras da mortalidade comum aos comuns, e rasgou o verbo, entre traços e troças, e persiste no clássico da literatura que hoje nos apresenta sua Maceió, ainda cidade-tempo acanhada, a rebolir e a borboletear muito graciosa entre séculos.
Raymundo Netto
Escritor e editor

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