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Textos de Oscar Wilde são organizados em coleção

Publicado originalmente no Correio Braziliense

A obra de arte sempre vence o tempo dos homens. No caso de Oscar Wilde, humilhado e posto ao escárnio público por uma obscura Inglaterra do século 19, a condição natural do valor intrínseco de suas criações soterrou a ignorância e a moralidade de uma época. Homossexual que se assumiu após sucessivos escândalos, o dramaturgo, poeta, romancista, contista e frasista irlandês é dono de textos teatrais que continuam a ser um instigante exercício de montagem para atores e diretores em todo o mundo. A importância de ser constante (1894) é um deles, constantemente revisitado pelo teatro e pelo cinema, e que compõe o primeiro volume de Teatro completo — Oscar Wilde (edição bilíngue, inglês/português, da editora Landmark). Estão nesse tomo, Vera ou os niilistas (1881), A duquesa de Pádua (1883) e O leque de Lady Windermere (1892). Salomé, um dos clássicos de Wilde, compõe o volume 2 com mais quatro peças.

A obra teatral de Oscar Wilde, que se inicia com a melodramática Vera ou os niilistas, traz o frescor do olhar satírico e crítico do autor à aristocracia da época. É engraçadísismo como ele desdenha da falida instituição do casamento em A importância de ser constante, por exemplo, expondo o jogo de interesses e a hipocrisia que rondavam o acerto dos matrimônios entre os nobres, como Algernon e Jack:

Algernon — Realmente, realmente não vejo nada de romântico num pedido de casamento. É muito romântico estar apaixonado. Mas não há nada de romântico num pedido. Ora, pode até ser aceito. Normalmente é, eu creio. E aí acaba toda a excitação. A verdadeira essência do romance é a incerteza. Se algum dia vier a me casar, com certeza tentarei esquecer-me do fato.

Jack — Não tenho a menor dúvida disso, caro Algy. A Corte dos Divórcios foi criada especialmente para as pessoas que possui esse tipo curioso de memória.

Os jogos de diálogos entre Algernon e Jack seguem potentes em A importância de ser constante e agudizam com a chegada de Tia Augusta ou Lady Bracknell, com seu algoz apetite sobre as palavras, devoradas e ditas sem economia. Quando ela descobre que o pretendente a marido da filha, não teve berço e foi encontrado numa maleta de mão, dispara, para depois, sair do aposento, majestosa:

Lady Bracknell — O senhor não pode imaginar que eu e Lorde Bracknell sonharíamos em permitir que nossa única filha — uma moça criada com maior carinho — se case com num bagageiro e faça uma aliança com um embrulho! Passe bem! Mr. Worthing!

Integrante do movimento Esteticista, do escritor e crítico Walter Paden, que pregava a “arte pela arte, a crença de que a beleza não precisava de qualquer justificativa além dela”, Oscar Wilde encontrou, no desejo de expor o belo como “a verdade”, uma forma de ficar livre de uma mensagem ou de um conteúdo social da época que o martirizava. O uso da sátira como forma e o olhar de cronista, que sempre estava numa posição de observador da caquética aristocracia, encarregaram de encher a obra de Oscar Wilde de um forte teor crítico sobre a cena social. Vai além da simples arquitetura da comédia de costumes, apesar de se parecer bastante com o gênero, como bem explica o prefácio da edição da Landmark.

— O teatro de Wilde invoca em si mesmo e, ao mesmo tempo, uma reação e frustração do público: as situações dramáticas e satíricas são inovadas, apresentadas e completamente alteradas em seu desfecho, ferramentas utilizadas por Wilde, como um manipulador de situações, no desejo de criar um espaço no qual o público se reconhece e associa as regras literárias com a comédia de costumes. Wilde assim, compartilha o prazer de pertencer a uma comunidade elitista com o estabelecimento de uma aristocracia alternativa, moldada não pelos direitos de berço ou dinheiro, mas sim pelo reconhecimento e pela sabedoria. Essa é a principal característica de sua obra teatral.

Primeira vítima gay
O livro Heróis e exílios — Ícones gays através dos tempos, de Tom Ambrose (Editora Gutenberg) dedica um longo capítulo sobre Oscar Wilde, cuja imagem está na capa da obra. A relação de amizade de Wilde com o esteticista Paden, também vítima da Inglaterra moralista, explica mais a escolha formal de Wilde num momento delicado de sua vida, quando chegou ao Magdalen College, em Oxford, em 1874. Todo o calvário do escritor irlandês, ao assumir a homossexualidade, ganha razoável descrição em capítulo que conclui, ter sido Oscar Wilde a primeira vítima gay da cultura das modernas celebridades.

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