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Siciliano, do Del Paseo, irá fechar as portas

Coluna do Dimitri Túlio no jornal O Povo de 20/08:

http://imgs.opovo.com.br/app/noticia_128033434835/2011/08/20/2282769/20110819214915247771i.jpgHá saudades estranhas. E uma delas me tomou na semana que se foi. Foi quando o rapaz da Siciliano, do Del Paseo, me avisou que a livraria iria fechar as portas e não mais abriria depois de agosto. E fiquei assim, meio assim. Uma sensação de alguém indo embora num Caravelle.
Há no pequeno apartamento onde vivo e divido, uma carrada de livros que vieram da Siciliano. E neles, um monte de dedicatórias que gosto de reler só porque me buscam as lembranças. Principalmente os oferecimentos das crias, palavras cheias de Sarah, Saulo e Pedro. Repletas de dias nunca esquecidos.
“Pai, você é um ótimo “dad”. Eu gosto muito de você, apesar de eu não ver muita graça em ler um dicionário como leitura normal. Feliz Natal e um próspero ano novo” (Sarah 2005). “Oi pai. Sei que você é muito esperto, mas todo escritor precisa de um dicionário. Este dicionário (um Aurelhão) é pra o senhor escrever a Das Antigas. Não esqueça que eu também gosto de ler” (Pedro, 2005)…
Pois bem. Fechar a Siciliano, mais outra livraria! É da mesma comoção de passar por uma rua onde havia uma árvore e a esquartejaram na quietude da noite. Sinto falta, dou pela ausência. Um susto de passarinho, do tamanho do cemitério cavado na Santos Dumont com Desembargador Moreira.
E o rapaz ainda me disse: todos os livros vão para São Paulo e estamos de aviso prévio. Sendo que a Saraiva, dona da franquia, vai lacrar também a Siciliano do Rio Grande do Norte e outros endereços no Nordeste.
Talvez venha uma casa de livros das Minas Gerais para o lugar dela, mas quase certo é que se inaugure mais um empório de negociar sapatos, tamancos, tênis, botas… Pior para o Del Paseo que perderá muito do ar de praça contemporânea da Aldeota que está se desmilinguindo.
Aqui há o costume de se fechar livraria, de derrubar casarões antigos e arrancar quintais e bosques inteiros. Um amigo, Frederico Fontenele, me disse que passaria um tempo sem flanar pela esquina da João Cordeiro com a Tenente Benévolo. Estava despedaçado das recordações.
Cinco bangalôs dos anos 50 foram abaixo e na demolição, a casa bela da ex-amada que se foi menina. Na rua de dona Mocinha, perto da antiga fábrica Fortaleza, fez-se um oco passar por lá e ter de deslembrar de Tânia, seu Gil Furtado, dos natais… Uma sensação de aturdido após um ariamento.

 

Sei que na Parangaba antiga e indígena, vizinho ao terminal feio dos ônibus, também arrancarão umas cem árvores e botarão pra correr um bando de soins, passarins e outros bichos. Lá foi autorizado subir mais um shopping center e com certeza nenhuma boa taberna de livros, nenhum grande jardim com mangueiras, cajueiros, sapotizeiros…

Dimitri Túlio

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