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Senhora da própria voz

É difícil precisar o limite entre jornalismo e literatura. O repórter tem de saber escolher as palavras para contar histórias de forma agradável e verdadeira.

O escritor, por outro lado, tem de ter o mesmo olhar apurado. A linha entre as profissões é tão tênue que, por vezes, uma adentra o universo da outra. O último nome a fazê-lo é a jornalista Eliane Brum, em sua primeira ficção, ‘Uma Duas’ (Editora Leya, R$ 34,90, 176 páginas).

Eliane é conhecida pela sensibilidade e força de seu texto. Ganhadora de mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem, há mais de 20 anos dedica-se a desvelar o extraordinário que habita vidas supostamente comuns.
No romance, versa sobre a relação entre mãe e filha, contornada por ciúme e competição e ao mesmo tempo cheia de companheirismo. A obra traça relato sobre as relações de forma quase visceral.

DIÁRIO – Como é fazer ficção após três livros-reportagens?
ELIANE BRUM – Na reportagem, nos esvaziamos de preconceitos, de nossa visão de mundo, para nos deixarmos possuir pela voz do ‘Outro’. Na ficção, é o avesso. É possessão do nosso corpo por nossa própria voz. Só que uma voz que vem dos nossos subterrâneos, que não sabíamos que tínhamos. Neste sentido, foi uma possessão de mim por mim. Algo extremamente profundo, brutal e que abriu em mim uma fissura para sempre.

DIÁRIO – ‘Uma Duas’ é dramático e expressionista. O que te inspirou?
ELIANE – A história se impôs para mim, de dentro de mim. Não poderia ser outra. Esta possessão às vezes chega à literalidade, pelo menos essa foi a minha experiência. Vou dar exemplo que, para mim, foi assustador. No início, a ideia era que o livro fosse narrado apenas pela filha. Comecei a escrevê-lo assim. Numa madrugada, acordei com a voz da mãe falando dentro da minha cabeça. Nunca tinha ouvido vozes antes. Pensei: ‘Estou ficando maluca’. Ela, dizia mais ou menos o seguinte: ‘Essa história está errada, quero dar minha versão’. Fiquei assustada, mas com muita raiva dela. Afinal, o livro era meu. Resisti. Continuei apenas com a filha por mais duas semanas, mas a mãe não me dava sossego. Não suportava mais ouvi-la, é bem fácil imaginar como foi aterrorizante. Então deixei a mãe se tornar a outra narradora. Deixei, não. Ela me obrigou.

DIÁRIO – Qual é o limite da convivência familiar?
ELIANE – Você pode estar distante milhares de quilômetros da sua família ou mesmo rompido com seus pais, mas eles estão em você, ainda são o espelho onde você se reconhece. Para se tornar adulto, acho que é preciso superar pai e mãe, no sentido de dar a eles o tamanho que têm, uma dimensão humana, com tudo o que o humano tem de falho e de belo. Enquanto o pai é o Deus do Velho Testamento, é difícil tornar-se adulto. Enquanto a mãe é ‘A Mulher’, ‘O Útero’ – com toda idealização da maternidade que vivemos em nossa cultura e que nos atrapalha imensamente, seja no lugar de mãe ou de filha -, fica difícil crescer. Infelizmente, por limitações próprias e insegurança, muitos pais não conseguem perceber que precisam ser superados, por amor e por sanidade. Não falo de superação no sentido de ter mais sucesso, mas de que o filho possa alcançar sua singularidade.

DIÁRIO – O que você aprendeu em cada livro que escreveu?
ELIANE – Aprendi que a escrita só é possível a partir da escolha de nos entregarmos a ela. Esta entrega tem de ser destemida, porque não há controle. É sempre muito mais difícil, novo e visceral do que imaginamos quando começamos. Temos ideia, mas não sabemos aonde vai nos levar. E cada narrativa sempre nos leva, ainda bem, até onde não sabíamos que chegaríamos. Há um bocado de angústia neste processo. E um custo alto. No meu caso adoeço, emagreço vários quilos em alguns poucos dias, fico com insônia crônica, mas, ao final, sou mais eu mesma, seja lá o que isso significa. E acho que vivemos para isso, para essa busca cotidiana pela nossa própria voz.

Fonte: Diário do Grande ABC

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