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Revisitados: um livro, um rio e a estiagem

“Jaguaribe – Memória das Águas”, do poeta Luciano Maia, chega à sua décima edição, após 30 anos de lançamento

Em três meses de escrita, entre junho e agosto de 1982, nascia um depoimento-poesia de um menino de nove anos sobre a seca de 1958. Não apenas isso.

Em 2010, Luciano Maia lançava a nona edição de ´Jaguaribe´, musicada por Rodger Rogério FOTO: KIKO BARROS

Nascia um livro em forma de saga lírica sobre o Jaguaribe, seus braços ­ cheios e secos, suas paisagens, seus bichos, suas gentes. “Jaguaribe – memória das águas”, do poeta Luciano Maia, chega à sua décima edição, após 30 anos, editada, desta vez, pelo Armazém da Cultura.

“A ideia inicial de escrever o livro partiu mesmo dessas minhas lembranças de infância. Eu era menino, em Limoeiro do Norte, e presenciei uma seca terrível. Então, as chuvas, o rio, tudo isso ficou muito marcado em mim”, recorda o autor.

Entre as reminiscências, Luciano aponta um dia de novembro ou dezembro em que cortava macambira para o gado quando uma neblina de pingos grossos caiu por poucos minutos. “Não foi nem minutos, talvez. Mas segundos. Um minutinho. Quando parou, percebi que estava chorando. Nunca mais esqueci aquilo. Eu era tão pequeno e já sabia o valor da água, da chuva”.

Para ele, a reedição da obra em vívido período de seca não é à toa. “Não tenho nenhuma ligação com partidos políticos, mas o livro, em si, tem um tom político, no sentido de denúncia. Anos depois, ainda sofremos com a seca dos rios, sem que as autoridades deem a atenção necessária a esse problema. ´Jaguaribe´ vem a calhar, sim”, defende o autor.

Referências

A escrita bebeu ainda da inspiração de outros autores também dispostos a falar da terra, do rio, de elementos da natureza e da relação do homem com eles.

“O principal deles foi, com certeza, Francisco Carvalho. Ele era de Russas, ali vizinho ao Limoeiro e nos tornamos grandes amigos. Para mim, ele foi o maior poeta do Ceará, sem dúvidas”, reforça.

Após o lançamento de “Jaguaribe”, o poeta voltou a escrever sobre o rio em outras publicações, mas não com tanto afinco. De todo modo, manteve-se dedicado aos sonetos. “Considero que sou um poeta lírico. Gosto muito da forma elaborada para o soneto, pra você ver, data do século XIII e ainda costuma ser escrito hoje. E isso contrariando todos os prognósticos da Semana de 22! Os próprios modernistas depois escreveram sonetos”, elabora.

As constantes idas à Limoeiro do Norte estimulam o retorno do município e do rio aos livros de Luciano. Para ele, no entanto, o regresso sempre modifica lembranças.

“Como diria o poeta Caetano Ximenes, não volte mais ao país da sua infância porque as paisagens estão ´trans-feridas´. É isso mesmo. O colégio em que estudei parecia um templo e, hoje, vejo como um edifício pequeno. Os caminhos entre a minha casa e a cidade, os quais percorria de bicicleta, eram muito mais longos do que hoje, são só três ou quatro quilômetros, mas para mim, eram bem mais distantes”, conta. Segundo Luciano, em Limoeiro, o braço esquerdo do rio está totalmente assoreado e praticamente não corre mais água. No braço direito, porém, próximo à Chapada do Apodi, ele ainda é perene.

Audiovisual

Sem que o autor tivesse dito, era possível supor que os poemas de “Jaguaribe” vieram de lembranças infantis, dada a sinceridade dos relatos. Sua escrita é enxuta, porém visual e musical como conversas de crianças.

É possível ver e ouvir o som da chuva, o correr do rio entre as pedras, o som da triste partida da Acauã. Talvez também por isso, tenha partido do também poeta, o saudoso Augusto Pontes, a ideia de musicar “Jaguaribe – memória das águas”. “Quem produziu tudo foi o Rodger Rogério, nos conhecemos desde a década de 70 e ele quando leu achou a ideia muito boa, mas era o Augusto quem incentivava para que o Rodger terminasse”, explica Luciano.

A nona edição do livro, anterior a esta, foi justamente composta pelas partituras, produzidas por Rodger e lançadas em 2010, não apenas em livro, mas em CD. “Augusto dizia que essa obra tinha que ser cantada e encenada. Cantada já foi, falta agora o espetáculo de teatro!”, desafia o autor.

Além de poeta e escritor, Luciano Maia é professor de Direito na Universidade de Fortaleza, tradutor e cônsul honorário da Romênia em Fortaleza.

TRECHO
Do tempo: mau zelador
O rio secou as águas
O sol lambeu as vazantes
Juvenal juntou as mágoas
de agora às mágoas de antes
preso a essas malfadadas
pedras-verão lancinantes.
Faz tempo que o tempo é o mesmo
nesta terra tão sem tempo…
O homem calcula a esmo
o tempo, que vive dentro
de outro tempo, sem termo
eterno de cada momento.
Viu o barreiro estalar
o seu chão poligonal
como um mosaico que fende
a textura temporal
(o tempo é mau zelador
neste Nordeste estival).

LIVRO
Jaguaribe – Memória das Águas
Luciano Maia
Armazém da Cultura
2012, 96 páginas

Publicado no Diário do Nordeste  em /21/05/2013
MAYARA DE ARAÚJO

REPÓRTER

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