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Qualquer semelhança é mera coincidência…

 

Vejam um armazém que se tornará editora em Lisboa,  mas que não é o Armazém da Cultura.

 

Janelas verdes para o centro de Lisboa

ISABEL LUCAS

 

A mais nova editora em Portugal vai nascer num velho armazém onde o cheiro a livros está entranhado. Fica no centro de Lisboa e entrar ali é ir numa viagem pelo tempo. Estamos no princípio de tudo, ou seja, na génese da Divina Comédia. Desta vez sem Dante, mas com Dante a espreitar as palavras de Alexandre Vasconcelos e Sá. Ele é o homem entre paredes altas e janelas verdes.

Para quem gosta de livros e de tudo o que os rodeia, entrar aqui é como passar a porta para um mundo encantado. A chuva, o frio, os pés molhados, as pernas moídas de subir a calçada íngreme, tudo é esquecido. Fecha-se o guarda-chuva e os olhos já se perderam naquele lugar marcado por umas janelas imensas que vão do chão ao tecto, em arco, e quadrícula estreita, com pequenas vidraças a deixar passar a luz que resta de um dia de Inverno quase a chegar ao fim, quase a ser noite. Lá dentro é quente. O chão é de madeira, tábua corrida e cheia a livros, um cheiro antigo que não é mofo, não é pó. É papel para ler ou que já foi lido.

Estantes, caixotes, secretárias, armários cuja função se perdeu no tempo, escadas que vão dar a uma mezzanine, mais estantes, objectos que, retirados do lugar, parecem peças de museu, um armário de gavetas minúsculas que, quando se abrem, se descobrem capazes de compor palavras. São letras. Todo o abecedário em minúsculos pedaços de chumbo de quando cada página de livro era composta com a paciência e a precisão de um tipógrafo, que lia como quem está demasiado próximo da palavra para entender todo o sentido do texto. Letra a letra. A imaginação procura algumas e encontra. Primeiro o D, maiúsculo, e segue, sempre em maiúsculo até à composição final. DIVINA COMÉDIA. Encontrados todos os caracteres, dispostos lado a lado, a palavra assume um significado. É a mais recente editora fundada em Portugal e em processo de construção ali, num velho armazém no centro de Lisboa.

O lugar
Alexandre Vasconcelos e Sá não tem dúvidas de que aquele é o lugar. “Este espaço reflecte o que queremos fazer”, sublinha numa sala, que será a de reuniões e já vai sendo, a única forrada a papel novo, as lombadas da obra que antecipou um nascimento que não foi prematuro, mas cheio de significado, segundo o fundador desta editora que quer pôr no mercado entre 80 a 100 livros já este ano, mesmo em tempo de crise.

Saído da Objectiva, Vasconcelos e Sá foi à Feira de Frankfurt, quando estava a ser anunciado o nome do Nobel da Literatura, e encontrou disponíveis os direitos de publicação para Portugal de Mudanças, uma obra autobiográfica de Mo Yan, o chinês que em 2012 conquistou a Academia Sueca e foi anunciado ali mesmo, andava Alexandre às compras, o Nobel. Um livro pequeno que podia colocar no mercado, se acelerasse o processo de edição. Assim foi. Entregou a tradução a Vasco Gato e antes do Natal os portugueses tinham dois livros do Nobel chinês Peito Grande Ancas Largas, que a Ulisseia já tinha editado e que voltou a reeditar, e este Mudanças, capa branca com o símbolo de uma nova chancela. Era a estreia da Divina Comédia.

O editor fala do lugar, do livro que já nasceu, do que vai ser a editora que está a construir com o entusiasmo a contagiar os olhos, enquanto vai pedindo quase desculpa pelo caos à volta. Estamos num antigo armazém de uma antiga editora, um espaço que ele quer construir e adaptar às necessidades da sua nova casa: um lugar aberto ao público, com sessões de debate, lançamentos, festa à volta do livro, onde toda a gente pode entrar.

“As portas vão estar sempre abertas”, garante numa altura em que ainda há muita coisa em segredo, como o catálogo a lançar, os nomes que o compõem, a data precisa para a inauguração. “Gostávamos muito que a festa já pudesse acontecer aqui”, mas não quer prometer. Está quase tudo por fazer, ainda que muita coisa seja para fazer.

O cicerone
Os serviços editoriais, de uma equipa que à partida será de sete pessoas, irão funcionar na mezzanine para libertar o espaço em baixo para o público. Não vai haver livraria, mas há a vontade de receber “amigos” e de fazer exposições, de circular.

Como em casa, Alexandre faz de cicerone. Chega à porta que dá para um pátio agora atulhado de tralha, mas que será liberto para mesas e cadeiras e que se adivinha venha a ser uma sombra no Verão quente de Lisboa. É uma palavra quase sempre presente no discurso do editor. Lisboa. Gosta tanto de livros quanto da cidade onde nasceu e vive e para o centro da qual agora se vê regressar enquanto editor em tempo de crise.

Claro que calculou o risco. Anda nisto há muito anos, como gosta de dizer, apesar de ser novo. Na D. Quixote, primeiro. Foi lá que começou no que viria a ser um “vício” que ganhou ao Direito e a outras possibilidades de vida mais “seguras”. Ele continua a ir pelo risco. Agora sozinho, com a ajuda de uma equipa que trouxe com ele do último sítio por onde passou e que lhe garante a qualidade para avançar num tempo em que quase todos recuam.

“Arriscar num momento destes é dramático, mas já pensei mil vezes no que estou a fazer.” E não pensa a curto prazo. “Queremos que esta marca dure muito anos”, vai dizendo, e é como se o espaço em volta lhe desse algumas garantias. Tudo ali é sólido e é dessa solidez que anda à procura. É com ela que quer construir o catálogo dividido em duas marcas: uma “mais literária, se assim se pode dizer, voltada para um público que não é grande, mas que é fiel aos bons livros em Portugal e que contempla a ficção e o ensaio literários”, e outra “mais de entretenimento, livros bem feitos e a pensar em maior números de vendas.”

Descobrir
Ainda não abriu e já lhe vão chegando originais. Quer publicar nomes conhecidos, mas descobrir outros, gente nova, em português, e também gente que merece ser publicada por cá e nunca foi. Descobrir é um verbo a conjugar. Outra nota que vinca sempre: “Tratar muito bem os livros. Editorialmente, graficamente, e ter uma grande proximidade com os autores. Se eles quiserem vir de vez em quando para aqui escrever, queremos que isso seja possível. Esta também é a casa deles.”

Na única mesa de trabalho que ainda existe, as pilhas de papéis são grandes, os computadores pedem licença uns aos outros, tudo se amontoa. Viram-se capas, nada é ainda para revelar. Apenas que já há muito que fazer e muito para ler e decidir no que se refere à edição.

Os olhos, mais uma vez, brilham. Há emoções mais difíceis de esconder do que um nome num quadro. “Por agora é assim. Temos de trabalhar neste cantinho. Muitas vezes levamos as coisas para fazer em casa.

A falta de espaço e o barulho das obras que vão começar assim o exigem, mas é aqui que vamos estar todos, neste primeiro piso”, revela Alexandre com uma panorâmica sobre o espaço que é grande visto dali, pé-direito alto a antecipar dias de luz. E cheio de livros. Outra frase quase tão dita quanto o bom que é regressar ao centro de Lisboa. “É tão bom regressar ao centro da cidade!” Não é ponto final. É exclamação mesmo. E ver gente a passar e a entrar e poder vir a pé de casa, desde o Cais do Sodré, num percurso que tanto pode ser feito pela Rua da Prata dos Douradores, passar pala casa de Carlos Botelho, “o grande pinto de Lisboa”, de que tanto gosta. Ou variar, seguir pelo Príncipe Real, parar nos alfarrabistas da Rua da Misericórdia, descer o Chiado, a Rua do Alecrim. “Percurso inspirador”, ri o editor que quer dar uma gargalhada daqui a uns anos, naquele espaço, aliviado de um dia ter tido a ideia de abrir uma editora só sua, num tempo em que tudo e todos o desaconselhavam a fazê-lo. Porque acredita nos livros. E não vamos agora falar de formato. Estamos num armazém de uma antiga tipografia. para já, é papel.

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