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Pássaro Azul da Cultura

06.07.2010
De cara, uma inquietação: existe cultura no Twitter? O microblog, que inicialmente perguntava a seus usuários “O que você está fazendo?”, hoje pergunta “O que está acontecendo?”. Claro que ainda há muita gente que utiliza o serviço para falar do próprio umbigo – a que horas tomou café da manhã ou que tipo de problema teve no trabalho –, mas a característica principal da rede social mudou. Você escolhe que tipo de informação quer receber e compartilhar.

É nesse meio que surgem os twitteiros culturais, com uma campanha que, no final do ano passado, nasceu no ambiente virtual e influenciou vidas do lado de fora da tela: o perfil @DoeUmLivro sugeria que todos doassem um livro no Natal. José Luiz Goldfarb, professor de História da Ciência na PUC-SP, curador do Prêmio Jabuti há 20 anos e coordenador de projetos de incentivo à leitura em cinco estados, abraçou a ideia e começou a twittar com a hashtag #DoeUmLivroNoNatal. A onda atingiu seus mais de 8 mil seguidores e foi se espalhando pelo Brasil. Empresas aderiram, agências de publicidade, e o resultado foram mais de 180 mil livros arrecadados.

Goldfarb esteve em Fortaleza, no último domingo, para participar do 4º Encontro de Twitteiros Culturais (ETC), do qual é fundador. Em entrevista ao O POVO, o professor – que twitta pelo iPhone como quem respira, é judeu e adora tapioca – conta suas experiências no Twitter e faz projeções.

O POVO – O que é ser um twitteiro cultural?
José Luiz Goldfarb – O twitteiro cultural é diferente dos outros twitteiros, aqueles de que o pessoal reclama. Realmente eu não estou no Twitter pra jogar conversa fora. A gente brinca, conversa, mas sempre tem um gancho de promover a cultura, valorizar as coisas da cultura, priorizar a leitura. Aí vem um aspecto do meu trabalho de incentivador da leitura que não fui eu que inventei, mas um monte de especialistas: pelo tipo de cultura que a gente vive, no momento, a leitura, de fato, é a garantia de bom desempenho no estudo, na vida, no mundo competitivo, porque ela vai te propiciar uma cultura geral muito ampla, raciocínio, planejamento, memória. O que eu coloco nos ETCs? Que nós somos pessoas que sabemos que quem lê vai pra frente. É ler, ler e depois ler mais.

OP – Como a cultura está inserida no Twitter?
Goldfarb – Na literatura, a gente vai ter os microcontos. Em vários países, já existem experiências como a da Apple Store, que resolveu o problema dos músicos – eles vendem músicas por centavos, mas, no fim das contas, arrecadam o mesmo que com o CD –, e já acontece de você baixar livros por centavos, mas, na soma, ser milhões. No Twitter, você sempre tem a possibilidade de assistir a uma coisa grande por um link, não são só os 140 caracteres. Eu comprei um livro numa livraria e paguei R$ 50. Algumas pessoas baixaram o livro no Kindle, iPad, esses leitores digitais, e pagaram US$ 6, dá menos de R$ 12: ganha o autor, ganha o editor, mas não tem que gastar papel, transporte. Vão mudar as formas comerciais, mas elas se redescobrem, como na música.

OP – O senhor defende que, pelo Twitter, nós estamos retornando à comunicação escrita, que nunca se leu tanto quanto hoje. De que forma isso acontece?
Goldfarb – Como eu retribuo a quem me segue, tem um monte de jovem que vem me seguir pra ganhar seguidor. Acho isso positivo, porque, quando estou com um pouquinho de tempo sobrando, fico olhando a Home, que é onde aparecem todos os posts, para pescar alguma coisa. Daí acho um jovem que fala que está sem ter o que fazer. Alguém fala: “Vai numa balada”, “Liga a televisão”, “Pega um DVD”, e eu falo “Leia um livro”. Ele fala que não tem livro em casa, daí eu falo pra ele que tem sites que você baixa ou que você lê online. A ideia de ler online parece, pra nós, muito abstrata, difícil, mas não é tanto. Pra esses jovens, é uma coisa a mais ler na tela, eles já estão acostumados. Os nativos digitais serão, de fato, pessoas que vão ter mais facilidade de fazer essa leitura na tela.

OP – Você comenta que, nos últimos 500 anos, a revolução na comunicação foi a imprensa. O Twitter, com todas as suas possibilidades, seria a revolução do século XXI?
Goldfarb – Não sei se exatamente o Twitter. Teve uma época que a Google anunciou que ia fazer o Google Wave, que ia ser um novo Twitter, mas não aconteceu. Não era livre pra qualquer um se cadastrar. Estou muito satisfeito com o Twitter. Sei que a baleia (quando se sobrecarrega, o site mostra a imagem de uma baleia) aparece bastante, porque ele está sobrecarregado. A Copa do Mundo pôs muita gente pra twittar. Ele pesou e tem que investir em capacidade.

OP – Mas você defende que, com o Twitter, cada pessoa seria um polo de informação.
Goldfarb – Essa foi uma ideia que aprendi com o Augusto Franco, especialista em redes sociais: existem sociedades que têm um único polo de poder, que é tipo uma ditadura, um reinado, e tem sociedades como a nossa, que tem muitos polos. O limite do bom, do ideal, do utópico pra esses comunicólogos é cada um ser um polo, e o Twitter tem essa tendência. Outro dia eu vi uma frase boa do Luiz Milanese, da USP, que twitta bem sofisticado. Ele colocou que o twitteiro é um negócio legal porque você escolhe quem seguir, o que é normal, mas a vantagem é de poder escolher também quem te segue. Se não gostar, pode bloquear a pessoa. Você tem um poderzinho de ser uma rede.

OP – Como fica o jornalismo com essa rede?
Goldfarb – Não sou formado (em comunicação), nem pretendo. Não acho que há uma tendência a eliminar a mídia tradicional, mas ela vai aprender a postar. O Estadão e a Folha, por exemplo, quando têm uma informação legal que ninguém tem, colocam no portal e já postam no Twitter, não esperam pelo jornal impresso. É um furo deles, mas é no Twitter. A imprensa vai enfrentar um susto, uma sensação de que perdeu a função, mas não é verdade.

OP – Como ela pode dialogar com o Twitter?
Goldfarb – A turma me chama de twitteiro-mor, e eu tenho fontes que vêm do trabalho do jornalista. Para algumas coisas, a fonte vai continuar sendo o profissional. Na hora que você publicar essa matéria, eu vou twittar o seu link. O erro é o jornal, como aconteceu uma vez no Tocantins, se negar a abrir o link no digital, acreditando que vai vender mais papel. Isso é besteira, porque daí eu vou lá, escaneio e ponho no ar, mas fica um porcaria a qualidade, e é pior ainda, porque não estou te dando as condições de avaliar quantas pessoas estão te lendo por mim. Vou colocar uma imagem independente, num MySpace, que você não controla. Se você libera, e eu coloco a sua entrevista pros meus seguidores, eu vou te dar um pico de acessos, que é o que você quer. Há uma tendência de o cidadão ser mais participativo, mas isso é bom. Só que o jornal vai ter de aprender a lidar com essa realidade.

Fonte: Jornal O Povo

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