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“Parabélum” transforma narrativa em jorro de frases

Pós-moderna, obra de Gilmar de Carvalho teve final suprimido pela ditadura

CLÁUDIO PORTELLA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Publius Flavius, escritor romano que viveu no século 4 d.C., escreveu: “Si vis pacem, para bellum”.
A locução latina diz: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Muito tempo depois a indústria alemã de armas usaria o mote “Parabellum” para designar o calibre de suas pistolas.
As tais pistolas foram muito usadas no Nordeste na época do cangaço. Lampião e seu bando usaram a arma que se cunharia Parabélum, com acento e um L a menos.
“Parabélum”, de Gilmar de Carvalho, é um romance pós-moderno. Nele o autor alude à vida de um anti-herói, um salvador (que não salva nem a si), que é Jesus Cristo, transmutando-se depois em Lampião e Che Guevara. Mas, na verdade, é muitos outros.
A esquizofrenia do herói depende da verve do narrador, dos seus questionamentos, da sua acidez.
O narrador acaba se tornando o protagonista, ou vice-versa. Vou mais longe, o anti-herói é também o autor. O autor é quem atira. E atira quase sempre na hipocrisia.
A grande questão desse romance pós-tudo é a semiótica da linguagem. As frases são longas, de pouca respiração, que puxam a narrativa como um jorro, quase um transe psicótico, que se desfaz em uma imagem poética.
Os capítulos funcionam isolados, como contos ou até como crônicas. E é preciso estar atento à continuidade do romance, já que tudo parece funcionar bem sozinho.
Como toda obra de vanguarda de valor, antecipa o que viria a ser a costura de expressões de arte/linguagem no corpo da narração. Vemos facilmente o cinema, o teatro, as histórias em quadrinhos, a psicanálise e a televisão transitando e construindo o universo do herói.
A humanidade parece estar sempre precisando de heróis. O homem tem de se ver salvo dele mesmo e busca no herói o perdão dos seus pecados. Na literatura, o herói não é menos procurado.
O herói de “Parabélum” nasceu numa época difícil: a década de 1970, a mais truculenta da ditadura militar.
Foram anos nada fáceis para o autor. Ele teve até de suprimir a última frase do livro.
O que até poderia parecer uma frase inocente para os militares seria mais um tiro de pistola: “Não editou o AI-5″. Não é por acaso que ele (o herói) é Jesus, Lampião e Che.
Na apresentação da nova edição, João Silvério Trevisan chama a atenção para o poético. Eu destaco a refinada crítica à burguesia, que vale para os novos-ricos de então, que teimam em assolar o sertão. Poesia e ironia andam de mãos dadas, com um “Parabélum” na outra.


CLÁUDIO PORTELLA é poeta e autor de “Bingo!” e “Cego Aderaldo”, entre outros.

PARABÉLUM
AUTOR Gilmar de Carvalho
EDITORA Armazém da Cultura
QUANTO R$ 55 (264 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Fonte: Jornal Folha de S.PAulo

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