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Parabélum: expectativas heroicas de nós, leitores

Por Nilto Maciel
Não sei quando se iniciou a impressão do Parabélum. Terá sido em 76? Ou 77? Não sei também quando me encontrei com Gilmar de Carvalho, na Praça do Ferreira (manhã ou tarde?), e ele, muito feliz, anunciou: Nilto, meu romance está quase pronto. Dias ou meses depois, obtive (não sei se comprei ou ganhei) um exemplar da obra, que li bem devagar, tomado de estupefação. Ora, ora, aquilo era um monumento de ouro.

Os tempos passaram e eu nunca mais ouvira falar de Parabélum. Estaria enganado? Como pudera me deixar enganar assim? 34 anos após a publicação do livro, reencontrei Gilmar no Armazém da Cultura, empreendimento de Albanisa Lucia Dummar Pontes. Noite de gala, como poucas em minha vida de habitante das trevas. No palco, o romancista e dois jovens jornalistas. Ocorria o lançamento da segunda edição do romance. Porém, não estou aqui para falar de Gilmar de Carvalho nem de Parabélum. Muito menos do passado. Estou aqui para louvar duas pessoas: Albanisa Dummar e Saulo Lemos. Ela, pela criação do Armazém da Cultura, “casa editora e espaço multicultural”, “situado em uma antiga e charmosa rua de Fortaleza, entre um tradicional antiquário e um consultório de psiquiatria, e em frente a um barzinho dos mais charmosos e autênticos”. (Esse redator deve ser um charme). Como se lê no site da empresa, “o espaço compreende, além de editora, uma aconchegante sala de estar cultural destinada a atividades como tertúlias literárias, atividades infantis, pocket shows, sessões de cinema, concertos, leitura de peças, dança, palestras, pequenos cursos, debates e exposições”. Que fez ela de bom e grandioso, para merecer tantos elogios? Apostou em Gilmar de Carvalho, no seu talento, e reeditou um escrito tido como inexistente. Aposta nos escritores do Ceará e irá editar e reeditar tantos quantos forem os bons poetas, ficcionistas e ensaístas nascidos aqui. Ela é boazinha? Mecenas de saia? Não sei. É diferente dos outros editores? Só pode ser. É mulher de ampla visão? Ora se é. Dirão os mal intencionados: Todos esses elogios teem uma razão: Albanisa irá publicar Os Guerreiros de Monte-Mor. Sim, é verdade. E isso a torna mais especial ainda. Mas, basta de lantejoulas e passemos ao outro personagem.
Quem é Saulo Lemos? Não o conheço. Só o vi na noite dos lançamentos (21 de junho de 2011), no Armazém, do Parabélum e do seu Expectativas Heroicas: Mito, história e leitura em Parabélum, de Gilmar de Carvalho (Fortaleza: Arte Visual, 2011), ganhador do Prêmio Braga Montenegro, da Secretaria da Cultura do Ceará, 2010. Conversei um minuto com ele, enquanto autografava meu exemplar. Fiquei sabedor de duas ou três informações dele: nasceu em 1979, ano em que morreu meu irmão caçula, Edinardo. Formou-se em Comunicação Social, fez mestrado em Literatura Brasileira, é professor de Literatura de Língua Portuguesa na Universidade Estadual do Ceará e apresentou como dissertação do mestrado, escrita entre 2004 e 2005, a obra que ora se fez livro. Porém, Saulo não é apenas isto. É um ousado pesquisdor. Pois quem ousou se debruçar sobre um papiro tido como “quase inexistente” e dele fazer tese de mestrado em Literatura Brasileira? Pois ele o fez. E com muita sabedoria e muito trabalho.
Sim, não é a primeira vez que se estuda parte ou o conjunto da obra de escritor cearense vivo. José Lemos Monteiro escreveu três peças desse tipo: O universo mí(s)tico de José Alcides Pinto (1979), O discurso literário de Moreira Campos (1980) e O compromisso literário de Eduardo Campos (1981). Paulo de Tarso Pardal é autor de O espaço alucinante de José Alcides Pinto (1999), síntese de monografia de mestrado. José Batista de Lima publicou Moreira Campos: A escritura da Ordem e da Desordem (1993). Francisco Carvalho mereceu dois estudos: Três dimensões da poética de Francisco Carvalho (1996), de Ana Vládia Mourão, e o de Mailma Vasconcelos de Sousa. O mais recente homenageado é Airton Monte, cujo perfil está na exposição de Anamélia Sampaio, intitulada Airton no divã: várias faces do boêmio.
Entretanto, os escritores estudados nos tomos acima referidos já eram, por ocasião das publicações, nomes consagrados, pelo menos no meio literário e acadêmico do Ceará. Gilmar não é sequer conhecido como romancista ou contista. Quase sempre o seu nome é citado apenas como estudioso da cultura popular.
Expectativas heroicas é rico em minúcias, informações, análises, comparações. Está dividido nas seguintes partes: “Uma leitura crítica, digamos”, “Heranças e princípios”, “Uma leitura da história em Parabélum”, “Falas da memória”, “Mito: origens e expectativas”, “Mitos, vanguardas e considerações finais”, além de uma entrevista com Gilmar. Inicia-se com uma análise da capa da primeira edição: “A capa simula a estrutura visual de uma carta de baralho”. Para o ensaísta, “O modo de construção do romance sugere a estrutura de um grande mosaico, tanto nos temas como nas formas.”
Parabélum é uma narrativa singular, não só no círculo literário cearense como num espaço mais amplo, nacional. Disso Saulo tem conhecimento: “Poucas são as obras, no Ceará, com uma proposta experimental semelhante, especialmente no que se refere à produção local desde o grupo Clã, marco coletivo da chegada do modernismo literário ao Ceará.” Para embasar o ensaio, Saulo buscou o apoio de diversas publicações que estudam a literatura, delas se valendo amiúde, com citações, ao longo de sua dissertação. Veja-se a vasta bibliografia no final do volume.
O livro de Saulo Lemos escarafuncha todas as características da invenção de Gilmar de Carvalho. É romance ou não é? Mesmo que “Muitos capítulos assemelhem-se a contos ou crônicas”. E quem são os personagens de Gilmar? Para Saulo, “Parabélum não é, por isso, um romance de personagem à maneira tradicional”. Porque o “herói” (assim o protagonista é designado na maior parte da narrativa) tanto pode ser um Cristo, como um Lampião e um gerrilheiro de esquerda (Ernesto Che Guevara?). Apesar disso (a história, os evangelhos, a oralidade sertaneja, a literatura de cordel), Parabélum se refere à atualidade (do tempo em que foi escrito). De que se alimentou Gilmar para compor sua sinfonia? Basicamente (e ele afirma isto em entrevistas) de livros (a Bíblia, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Borges e outros hispano-americanos); do cinema-novo e do cinema europeu (Godard, Pasolini); de histórias de cangaceiros e crimes (ouvidas de sertanejos, na casa de seu pai, médico em Sobral); dos jornais e revistas (O Cruzeiro, Manchete), etc. “Nenhuma obra literária possui ou jamais possuiu atestado de originalidade, no sentido absoluto do termo”, resume Saulo.
Não me dedicarei mais a falar do conteúdo da peça de Saulo. Ela está aí para ser lida. Assim como o narrativa que a originou. E a literatura toda de Gilmar de Carvalho. Só é preciso repetir: ensaios como este são raros. E Saulo só merece louvores, pela coragem de estudar um livro fora do mercado e do cânone e pela dedicação ao estudo, em leituras variadas de teóricos brasileiros e estrangeiros e na busca de informações da obra estudada.
Fortaleza, 5 de julho de 2011.

Fonte: Blog Literatura sem fronteiras

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