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Obra acima de tudo telúrica

Ana Miranda – O Estado de S. Paulo

Desde 2006, quando passei a morar em uma praia cearense, tenho me impressionado com a presença de Rachel no cotidiano cultural do Ceará. Ela parece ser onipresente e é venerada como uma rainha. Este é um dos aspectos da obra de Rachel muito ligado a sua literatura: a pertença à terra onde nasceu. Desde antes de publicar seu primeiro romance, a moça de 17 anos já atuava, pública e opinativamente, nas redações de jornais, ambiente onde iniciou uma lida que teria a sua mesma longevidade. Vida marcada, desde sempre, pela força da palavra. Em sua casa de infância havia uma biblioteca de livros aos milhares, e só essa presença física já teria peso para marcar uma criança sensível e de uma vivacidade fabulosa. Imaginemos, então, a menininha lendo esses livros. Ela conta que leu aos cinco anos de idade o romance Ubirajara, de seu parente José de Alencar, embora sem compreendê-lo.

Outro aspecto que acho interessante na construção dessa escritora é o nome Rachel, e não Raquel, nome que a menina e a adolescente carregavam porta de casa afora, causando estranheza, nome que lhe trazia uma diferenciação bastante ambígua e enigmática, no momento da afirmação de sua personalidade; ela mesma conta que as meninas da escola a chamavam de Rachel com a sonoridade do X, zombando da diferença, como se lhe dissessem que havia algo a averiguar nesse pequeno mas profundo paradoxo. Nome que foi experimentado, retrabalhado, reescrito, fantasiado sob pseudônimos, um deles quase anagrama sonoro: Rita de Queluz, a autora dos seus primeiros textos publicados. Outro paradoxo: Rachel gostava de apregoar que era “jornalista profissional e ficcionista amadora”. Ao publicar sob pseudônimo suas primeiras peças jornalísticas, e sob o nome de batismo e de família as suas obras ficcionais, indicaria aí a nativa compreensão de que era verdadeiramente ficcionista, iluminando na palavra amadora a sua etimologia mais pura: por amor.

A entrada de Rachel na literatura é muito curiosa. A sua expressão literária inicial teria sido uma carta. Lendo os jornais da época, Rachel encontrou a notícia da eleição da Rainha dos Estudantes; escreveu uma espécie de crônica em que ironizava o coroamento de uma rainha em pleno regime republicano, e enviou-a ao jornal. A carta foi comentadíssima pela sociedade cearense, a misteriosa Rita de Queluz que a assinava nascia ali, com esse estigma da crítica e da galhofa tão tipicamente cearenses. Uma crisálida, pois toda essa situação já fazia parte da persona literária de Rachel de Queiroz. Era a porta que ela abria, o labirinto que seguiria. Seus poemas, escritos no calor do desejo de expressar um mundo vivíssimo e pessoal, reforçam a sua ligação com a terra. Parte desses poemas Rachel reuniu sob o título de Mandacaru, prefaciando que eram seu desejo de inserir o Ceará no movimento modernista brasileiro, acompanhado com entusiasmo pela mocinha. Outra coleção de seus poemas, sem um título geral – mas que eu, organizadora de sua edição, intitulei de Serenata (Armazém da Cultura, 128 páginas, R$ 35), nome de uma das poesias -, contém os temas da seca, da casa de fazenda ou de sítio que ela amava, personagens populares como a costureira, anotações da religiosidade popular, ou louvações e sátiras em sonetos dedicados a figuras locais.

Nas crônicas, que publicou desde a adolescência, no entanto, por seu caráter não tão íntimo como a ficção, Rachelzinha sai pelo mundo em busca de temas, porém preservando e iluminando cada vez mais a maneira de falar cearense em nichos dentro da linguagem impessoal do jornalismo. Embora, em sua formação, tivesse lido inúmeros livros de autores estrangeiros, aquelas viagens a outros mundos não a afastavam do seu, parece que até, ao contrário, a enraizavam ainda mais.

Efígie do sertão. Com a publicação do paradigmático O Quinze, Rachel eternizou para o Ceará, e para outros estados, a paisagem geográfica e humana dos sertões e interiores de sua infância. Por meio desse romance, a efígie do sertão cearense e de Fortaleza, assolados pela dramaticidade e tragédia da estiagem, adquiriram uma forma mais nítida e um espectro mais amplo que a própria literatura. Como dizem, os livros ensinam muito além do que sabem. O Ceará, o tesouro imagístico e legendário dessa terra, fazia então parte do conjunto mítico literário nacional, com o vigor da proeza realizada antes por Iracema, de Alencar. Rachel passou a ser uma espécie de entidade nacional, cujo dote era a força da palavra.

Essa postura telúrica era ao mesmo tempo natural, naquele ser amado pela família arraigada, e ideológica. Já no poema “O meu violão”, uma de suas primeiras publicações avulsas, ela estabelece que adotaria o som rústico tocado por Catulo (da Paixão Cearense), nome que sugere o luar do sertão, mais do que a sofisticação da vida urbana cheia de palavrinhas francesas, árias e sonatas. O piano surge como um símbolo de refinamento europeu que ela rejeita, jamais a “ebúrnea fidalguia” de um piano assentaria a suas mãos “vulgares e morenas”. Essas mãos vulgares e morenas pareciam significar o seu compromisso territorial, assinado tão precocemente e fielmente seguido em toda sua obra. Ecos do romantismo de Alencar, perfeitamente conhecido, em sua formulação ideológica, pela autora. José de Alencar dizia que saíra de uma família “para quem a política era uma religião e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de nossa história”. A postura de Rachel diante da literatura era também uma questão familiar, de caráter político e histórico, adicionada a novas teorias de linguagem: “Procurei fazer um tipo de literatura que fosse só um testemunho, quase que só um depoimento”, jamais dada a experimentalismos ou rebuscamentos, quiçá os relacionando à “ebúrnea fidalguia” do piano.

Estilo. Rachel é de um tempo em que a aldeia era o universo possível, dentro da mitologia criada pela sentença de Tolstoi, de que para expressar o mundo mais amplo o autor deveria debruçar-se sobre suas próprias origens. Não há, ainda hoje, como se escapar a essa concepção, mas o “fabulador sedentário”, criado por Walter Benjamin e estudado na dissertação de Claudene de Oliveira Aragão sobre nossa Rachel, não é uma instância obrigatória. Rachel sabia, e não apenas preservava suas crenças, como as pregava religiosamente. A mim, tentou em todos os nossos encontros convencer de que minha literatura deveria não apenas visitar o Ceará, mas nascer dele, como eu fora nascida. Seus argumentos revelavam muito de sua filosofia literária, e, claro, me inquietavam, embora eu me fundamentasse em outro mito literário, enunciado por diversos autores, mas estabelecido mais fundamente por Fernando Pessoa, de que “nossa pátria é nossa língua”.

O mundo hoje é pequeno, os escritores viajam e vivem em reinos mais complexos. A aldeia está em extinção. Ao menos, a aldeia geográfica. O cearense é nômade e extrovertido, vide Alencar. Esse era o teor mais constante de nossas conversas. Também, Rachel demonstrava uma preocupação imensa com as questões de linguagem e o que ela chamava de estilo. Cultivava a percepção estética e lutava entre as oscilações de sua linguagem, precisando harmonizar a obra ficcional com a jornalística. Tudo ela fez consciente, com a perfeição de quem lê por dentro e não se aquieta enquanto não cumpre seu fadário.

ANA MIRANDA É ESCRITORA, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE YUXIN E DESMUNDO (AMBOS PUBLICADOS PELA COMPANHIA DAS LETRAS)

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