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O peso da luz em crônica de Ana Miranda

ANA MIRANDA 29/09/2013

Eclipses no Ceará III

Ana Miranda

Para a maioria das pessoas, os eclipses do sol são um mistério, pois raras vezes acontecem e poucas já os viram. Desde tempos antigos os escurecimentos solares ou lunares eram tidos como augúrios, causando medo. Gritos, tiros, alarmas soam para afastar do astro a sombra do monstro ameaçador, escreveu Camara Cascudo. “É uma tradição quase universal e já anotada no Brasil”. Uma das mais belas descrições foi feita pela viajante inglesa Elizabeth Agassiz, que assistiu ao eclipse solar de 1685, no Rio de Janeiro. Ela acabava de chegar e estava ainda a bordo do navio, e assim descreveu o que sentiu: “O efeito foi tão estranho quanto admirável. Gélida palidez invadiu a terra com sua sombra e houve como que um calafrio de toda a natureza. Não era um crepúsculo natural, antes, um lúgubre panorama do reino dos fantasmas”.

O eclipse em Sobral, a 29 de maio de 1919, um dos mais longos, com a duração de seis minutos, foi descrito por Henrique Morize em um precioso diário, e pelos observadores ingleses, Crommelin e Davidson. Para desespero de todos, naquela manhã o céu se mantinha coberto de nuvens. O Jockey estava repleto de moradores da Cidade, ao redor da estação dos ingleses, assim como o largo do Patrocínio, onde os cientistas brasileiros aguardavam; todos tensos, ansiosos, a apontar olhos e instrumentos para o céu, esperando que uma brecha se abrisse entre as nuvens. Aos poucos o Sol se encobria pela sombra da Lua, mas quase nada se podia avistar, ora uma fresta aqui, ora ali, até que o astro desapareceu, transformando-se num filete de luz.

E o céu se abriu, todos puderam ver maravilhosamente aquele fenômeno. Morize comparou a imagem ao halo que aparece na cabeça de santos. Tanto cientistas ingleses como brasileiros puderam sacar suas fotos. Os britânicos enviaram as chapas para Londres, felizes com o sucesso da observação. Um mês depois retornariam a Sobral para tomar as fotografias de comparação, que comprovariam a curvatura da luz, na medida determinada por Einstein.

Os astrônomos que observavam o eclipse a partir da ilha de Príncipe não tiveram a mesma sorte, mas conseguiram algumas fotos, também mandadas para Londres. O material foi apresentado em relatos escritos e orais, e os resultados dos testes inicialmente comprovavam que a teoria da relatividade geral, de Einstein, estava correta. Era a maior conquista científica do século, e uma das maiores, talvez a maior realização na história do pensamento humano, diziam os jornais. Anunciada num mundo ferido pela guerra, a colaboração entre cientistas que pertenciam a duas nações inimigas parecia prenunciar uma nova era. “Revolução na ciência”, “Ideias de Newton superadas”, “Estrelas não estão onde parecem estar”, diziam manchetes. “O conceito científico do universo tem de mudar”, a teoria de Einstein “exigirá uma nova filosofia do universo, uma filosofia que vai varrer tudo o que tem sido aceito até agora”. “Essa notícia é claramente um choque, e surgirão apreensões até sobre a confiabilidade da tabuada”. “Os fundamentos de todo o pensamento humano foram minados”. O princípio da relatividade revelava equivalentes em outros domínios da natureza e do conhecimento, em termos gerais. A teoria tornou-se popular, a ponto de “qualquer motorista ou garçom” a discutirem, em diversas partes do planeta. Era o caldeirão onde se formava o modernismo, rompendo-se velhas certezas e verdades. O mundo estava mudado.

Quando veio ao Rio, em 1925, Einstein disse: “A pergunta que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil”. No entanto, poucos são os cearenses, os brasileiros, que conhecem o tema. Em Sobral, há um museu que guarda a memória de tais acontecimentos, e diversos testemunhos.

Algumas publicações nacionais se referem e documentam os fatos ocorridos aqui durante o eclipse de 1919. E os diários de Morize, e os relatos dos ingleses Crommelin e Davidson, esclarecem muitos pontos desse assunto. Recolhendo material e apaixonada por esse fascinante tema, acabei por escrever uma ficção sobre a vinda dos cientistas ao Brasil, a observação em Sobral, e a visita de Einstein ao Rio de Janeiro. Equilibrando poesia e ciência, é uma novela cearense, intitulada O peso da luz, Einstein no Ceará, que acaba de sair pela editora Armazém da Cultura. A ficção histórica tem o dom de despertar a curiosidade, de enraizar elementos na cultura local e, em alguns casos, universal. Esse é o meu primeiro livro que se passa no chão e sob o céu do Ceará, por isso comemoro.

“Desde tempos antigos os escurecimentos solares ou lunares eram tidos como augúrios, causando medo. Gritos, tiros, alarmas soam para afastar do astro a sombra do monstro ameaçador”

“Para desespero de todos, naquela manhã o céu se mantinha coberto de nuvens. O Jockey estava repleto de moradores da

Cidade, ao redor da estação dos ingleses”

“O material foi apresentado em relatos escritos e orais, e os resultados dos testes compro-vavam que a teoria da relatividade geral, de Einstein, estava correta”

“A ficção istórica tem o dom de despertar a curiosidade, de enraizar elementos na cultura local e, em alguns casos, universal”

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