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O guardião de 30 mil deuses

Numa sala de poucos metros quadrados, grande parte da história do Brasil. Não à toa, na porta de vidro que guarda o tesouro de livros raros de José Augusto Barbosa está estampada a passagem bíblica do livro Êxodos: “Bata o pó das tuas sandálias pois o chão em que pisas és um solo sagrado”.

O bibliófilo gira a chave e convida Debret, Guimarães Rosa, Camões, Euclides da Cunha, Drummond, Gilberto Freyre e tantos outros para também conversar com O POVO. Filho de Jaguaribe, José Augusto, que talvez estivesse destinado à lida de vaqueiro, prometeu ao livreiro Melquisedec montar sua própria biblioteca. Ele presenteou o menino com o primeiro dos mais de 30 mil livros que José Augusto possui hoje. Uma coleção que já ganhou elogios de políticos e bibliófilos de várias partes do Brasil e do mundo.

Aliás, está na biblioteca de José Augusto o mais importante conjunto de Imprensão régia. Isso sem falar na cartilha em que estudou D. Pedro II, no menor exemplar de uma Constituição brasileira, nos livros de reis…

O POVO – Como surgiu o seu interesse pelos livros?

José Augusto Bezerra – O interesse surgiu pelo estímulo inicial da minha mãe. Embora ela não tivesse leitura, admirava muito os livros e me passou um pouco disso. Mas acredito que tais coisas nascem espontaneamente. Uma vocação, palavra do latim que quer dizer chamado. O chamado interior, quase sempre, irresistível. Muitas vezes se abandona tudo. Dinheiro, glórias, aventuras por um chamado espiritual ou por uma carreira diplomática. No meu caso, quando criança, minha família saiu de Alto Santo, no interior do Ceará, para Recife pensando em educar melhor, a mim e a meu irmão. No Recife, criança, de família modesta, ia trocar os livros que usava num ano letivo por outros novos nos sebos de lá. Comecei a olhar livros, conhecer e perguntar sobre eles. É uma arte que exige atenção, perspicácia e interesse. Embora todos os meus filhos gostem de livros, ainda não consegui transmitir essa paixão do chamado a nenhum deles, pois cada um tem o seu próprio chamado. Talvez os netos.

O POVO – O senhor chegava a adquirir outros livros?

José Augusto Bezerra – Com o tempo comecei a observar outras pessoas que não iam procurar livros didáticos, mas sim livros mais especiais, chamados raros. Comecei a procurar a saber sobre aquilo também. Tinha um livreiro que se chamava Melquisedec. Era também bibliófilo. O que geralmente não dá certo. Ou se é vendedor ou se é colecionador. Ele termina ficando numa dúvida e ansiedade. Vender uma obra que gostaria de ficar ou vive-versa é uma angústia. Melquisedec observou o meu interesse e minha atração pelos livros. Quando eu tinha 12 anos ele me disse: “Tenho aqui um livro que considero extraordinário”. E era, para ele, na época, um livro extraordinário chamado Fábulas de La Fontaine, ilustradas por Gustavo Doré. Ainda hoje para mim Doré é o maior do gênero no mundo. E disse o velho livreiro: “Quero lhe dar esse livro e quero que prometa que vai formar uma grande biblioteca”. Prometi, recebi o livro e ainda o tenho. Depois me tornei um estudioso do Gustavo Doré, tanto que adquiri o primeiro livro feito por ele. Procurei cumprir o compromisso. Hoje tenho uma biblioteca que está entre as importantes, particulares, do Brasil.

O POVO – Como foi montada esta biblioteca?

José Augusto Bezerra – Ao longo de 50 anos fui criando esse patrimônio cultural. Naturalmente, a maioria dos colecionadores recebe herança de parentes e pais, e dão continuidade. Ou mesmo de amigos que dão como doação. Eu não recebi de ninguém. José Mindlin, que era considerado o maior bibliófilo do Brasil, esteve na minha biblioteca três vezes. Numa delas me disse: “Até que enfim encontrei um homem tão louco quanto eu!”. Mas depois ele disse uma coisa importante: “As nossas bibliotecas em termos de qualidade e quantidade são parecidas, mas quase a metade da minha biblioteca foi me dada pelo Rubens Braga de Moraes e você construiu a sua sozinho, o que é mais difícil”. Normalmente as bibliotecas particulares são especializadas em um tema. É quase uma loucura fazer uma biblioteca genérica como eu fiz. Abrange 12 áreas diferentes e em todas estamos bem situados no Brasil.

O POVO – Mas o senhor continua adquirindo?

José Augusto Bezerra – Sou presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos e então, através disso, todos me têm muita atenção, no Brasil e no Exterior. Ontem esteve aqui uma pessoa da Alemanha querendo fazer uma exposição dos livros raros da minha biblioteca, em Viena e em Berlim, no ano internacional do Brasil na Alemanha. O que não deixa de ser uma honraria para o Ceará. Continuo adquirindo livros referentes ao Brasil. Tal biblioteca, chamada brasiliana, especializada no Brasil, resguarda a memória do País. Eles me oferecem e vamos adquirindo vagarosamente. A maioria em leilões. Tem mais segurança, pois é uma coisa pública e sabemos as fontes. Essa é uma biblioteca viva e continua a ser construída. E espero que continue até o dia em que eu estiver vivo. Esse é um compromisso meu com a minha vocação.

O POVO – Qual é o livro mais raro, qual traz mais orgulho?

José Augusto Bezerra – Há poucos dias foi feita uma matéria numa revista especializada, chamada Scriptorium, sobre a minha biblioteca. O escritor disse que encontrou um colecionador que não transparece vaidade por ter livros raros. Realmente não tenho vaidade de tê-los. São companheiros de jornada. Quando pego um livro com 500 anos penso quantos donos ele já teve. E então eu sei que não sou dono propriamente. Estou apenas como guardião por determinado momento e sinto nisso mais uma responsabilidade do que uma vaidade. Não tenho um livro para dizer que é o mais raro. Tenho muitos livros raros e cada um deles tem uma história. Alguns passei 30 anos procurando, outros nunca esperei encontrar. Quando você pega um papel e vê que passou ali a mão de Santos Dumont! E talvez o único documento do mártir da Independência Tiradentes em mão de um particular no Brasil! Qual dos dois é o mais importante? Pegar por exemplo a primeira carta que D. João VI fez quando chegou ao Brasil ou um documento pessoal de Hitler. Cada um tem uma emoção diferente. Acho que a grandeza da biblioteca está no conjunto, na sua importância coletiva.

O POVO – Existem quantos livros na biblioteca?

José Augusto Bezerra – São aproximadamente 30 mil. Da história do Ceará é o maior conjunto já feito, creio. São oito mil livros. O maior conjunto de dicionários do Brasil, o maior conjunto de Linguística e Filologia da Língua Portuguesa. O maior conjunto sobre Rachel de Queiroz do País. Um dos maiores sobre manuscritos do Brasil, o maior acervo sobre oratória. Talvez o maior conjunto do mundo sobre ex-líbris. A Imprensão Régia é outra coleção extraordinária e um conjunto excepcional sobre a literatura infantil no Brasil também.

O POVO – Adquirir livros ainda é uma coisa cara no Brasil?

José Augusto Bezerra – Ainda é. O governo tem que subsidiar, trabalhar o mercado, para que o livro chegue às mãos de crianças e jovens. Quando lemos, abrimos a nossa mente e descobrimos novos horizontes. E o que acontece é que aumentamos a nossa ambição. Se você não tem novos horizontes, que ambição você tem? Não está preocupado em sair daqui, pois sabe que vai para outro lugar ganhar a mesma coisa. Mas se você sabe que pode ganhar mais em outro lugar você vai se preparar para chegar lá e vai ter mais ambição. O estudo eleva a ambição e a ambição gera a riqueza. A riqueza individual somada é riqueza coletiva. A riqueza das nações. A ambição individual só cresce se você ler.

O POVO – E é relevante o suporte desta leitura?

José Augusto Bezerra – Não importa o suporte. O livro já foi feito de pedra, de barro, foi feito de osso, de pergaminho, de papiro, de papel de linho e, atualmente, de papel celulose. E temos agora o livro eletrônico. Não faz diferença o suporte. O livro não esta sendo substituído. O material do livro é que está sendo substituído. A essência dele sempre foi a de preservar o conhecimento. Não importa se é feito de pedra ou se é virtual. O fato é que está preservando o conhecimento humano para que a nova geração continue de onde a anterior parou. Antes do livro, quando morria uma pessoa, era como se se incendiasse uma biblioteca. Morria todo o conhecimento. Com a invenção do livro nem você nem seu conhecimento morre propriamente. A próxima geração começa de onde a outra terminou. Esse foi o grande benefício do livro: possibilitar que a nova geração não precise mais reinventar a roda. Só depois do livro a humanidade se desenvolveu em todos os campos.

O POVO – O senhor conhece algum projeto em outro país que deu certo nesse sentido de incentivar a leitura?

José Augusto Bezerra – Todos os países que cresceram primeiro tiveram que se desenvolver culturalmente. O Brasil está lendo mais, se desenvolvendo mais em termos de leitores, formando mais nas universidades. É pouco ainda, pois temos um atraso histórico. Fomos o último país da América do Sul a ter imprensa. Houve um atraso de 200 anos em relação a outros países. Estou falando na América do Sul. Não estou nem falando em relação à Europa. Quando o Brasil fez seu primeiro livro a Europa já estava com 300 anos de livros e leitores. Entrava já em uma segunda fase do livro. Em certos momentos, acontece que os fatos nos empurram, nos levam. Hoje o Brasil está numa rota boa, cresce, e o progresso vai exigir mais gente especializada e mão de obra. Se não tiver um nível colegial não se emprega. A própria estrutura de desenvolvimento do País exigirá que a velocidade acelere e os governantes não terão como fugir da responsabilidade de criar novas possibilidades para que leia mais.

O POVO – Como o senhor percebe as mídias sociais?

José Augusto Bezerra – Toda comunicação é positiva. Essas mídias são importantes, mas não competem com os livros. Elas são para o relacionamento rápido e o livro é para relacionamento profundo. No livro você não fala com outra pessoa viva. Você fala com outra pessoa que geralmente é morta ou que está muito distante. O seu relacionamento é mais longo, profundo. Acho que as coisas se complementam. A internet dá as informações mais rápidas. E quando você quer dar dados mais completos vai buscar nos livros, daí se evitar citar a internet como fonte de pesquisa.

O POVO – O tempo que as pessoas gastam usando essas ferramentas não seria um tempo em que poderiam usufruir do livro?

José Augusto Bezerra – Essas duas coisas são necessárias. Tem que haver equilíbrio de tempo. No Brasil, o hábito da leitura ainda é frágil. Normalmente não há um equilíbrio ideal, mas é uma questão de tempo. Isso vai ter que se harmonizar, pois as necessidades obrigam. Então, se as pessoas querem se preparar para concursos e empregos, e desejam melhores salários, não vão conseguir isso com os bons papos pela internet, embora sejam também necessários. Tem que tirar tempo para ler. O desafio é sempre o ponto de equilíbrio.

O POVO – O senhor pessoalmente gosta de ler em outros formatos como internet ?

José Augusto Bezerra – Não sou contra, sou a favor, mas, ainda por uma formação, é algo pessoal, gasto mais tempo com o livro impresso do que com os meios virtuais. Eu pelo menos não perco muito tempo com conversas na internet. Tenho mais rapidez e captação se for pelo livro. Porém as pessoas mais jovens tendem a captar melhor pelo virtual, embora, como digo, essas coisas não se substituem, não se excluem, apenas se completam.

O POVO – O senhor tem quatro filhos, gostaria que algum deles mantivesse a biblioteca?

José Augusto Bezerra – Não tenho isso como aspiração. Todos gostam de livros, mas nenhum com a minha paixão. Mas também não pressiono. Creio que tudo deve ser profissionalizado. Transformei a minha biblioteca no Instituto José Augusto Bezerra. A ideia é que através de palestras e exposições pagas esse instituto se torne autossuficiente. Poderíamos preservar naturalmente um patrimônio que é da sociedade, dos estudiosos, dos pesquisadores.

O POVO – O senhor conhece alguém que teve sua vida mudada pelos livros?

José Augusto Bezerra – Com raras exceções todas as pessoas de sucesso devem suas vitórias ao livro. Poderia citar muitos casos. Eu, pessoalmente, nascido no sertão do Jaguaribe, poderia ser um vaqueiro hoje. Através dos livros construímos um nome. A leitura é o caminho. Foi, é e será o caminho das pessoas e das empresas. As organizações de sucesso são feitas com homens que leem mais. As instituições, os laboratórios e as universidades são de homens que leem muito. Todos os homens extraordinários têm um débito com os livros. Até, por exemplo, o ex-presidente Lula que não teve muitas oportunidades de ir à escola, de uma instrução regular. Mas interessantemente ele teve os livros orais, o grande livro da vida, a fonte de todos os livros. No começo da História, quando ainda não havia escrita nem imprensa, os livros eram orais. Alguns homens especiais, na falta do livro escrito, usam este conhecimento que ainda está no seu DNA e leem diretamente das circunstâncias que os cercam. Com certeza, muitos que não sabem ler poderiam escrever sobre suas fantásticas experiências.

O POVO – Como definiria sua relação com os livros?

José Augusto Bezerra – Uma bela pergunta que nunca me foi feita! Diria que tenho uma relação de carinho, de amizade, de respeito e de gratidão pelo que me ensinaram. Aprendi que estão aí dispostos a me dizer sempre mais se nós tivermos tempo e atenção. Esse foi o meu chamado, o meu destino. Victor Hugo dizia que os livros são deuses adormecidos que podemos acordar a qualquer instante. Portanto, tenho essa relação com divindades. Deuses que vez por outra estou acordando. É uma relação de simpatia, alegria. Não há cobranças. É uma relação altamente prazerosa.

Fonte: O Povo

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