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O futuro do livro?

Lançada no final de abril, a versão digital do livro Our Choice, de Al Gore, para iPad, iPhone e iPod Touch, chegou rapidamente até ao primeiro lugar no topdos livros da App Store da Apple. Embora o preço promocional seja atrativo (apenas cinco dólares; um quarto do que é preciso pagar pela edição em papel), as razões deste sucesso vão muito para além do interesse e qualidade da obra, originalmente publicada em 2009, três anos depois de Uma Verdade Inconveniente. Se nesse primeiro livro (e filme) Gore alertava para a tragédia do aquecimento global, em Our Choice sugere soluções para o problema, reunindo e partilhando o conhecimento científico que obteve junto de reconhecidos especialistas. «Temos de agir depressa» – eis o mote do antigo vice-presidente de Clinton, um otimista que acredita na força da vontade colectiva e na capacidade de as populações imporem escolhas decisivas aos políticos que as governam.

Por muito que Gore continue a ser eficaz e persuasivo no modo como transmite a sua mensagem, não é o conteúdo do livro (bastante atualizado, diga-se, ao ponto de incluir referências ao acidente na central nuclear de Fukushima, em março) que está a criar um bruaá mediático. Esse deve-se à forma como a informação emerge literalmente da tela e o leitor a vai descobrindo. Amy Lee, uma articulista do Huffington Post, escreveu que estamos a assistir «o ato de ler a transformar-se em algo completamente novo». E David Chartier, na revista PCWorld, garante que esta nova abordagem «expande a definição da palavra livro».

Exageros à parte, entremos então em Our Choice. Os 18 capítulos do livro não se limitam a reproduzir o texto integral, mais as suas 250 belíssimas imagens, antes se organizam naquilo a que podemos chamar uma intensa experiência multimédia. Ao tocar em qualquer das fotografias, estas são ampliadas de forma a ocupar todo o campo visual e podemos depois localizar, num mapa do mundo, o lugar exato onde foram captadas. À distância de um simples toque, fica igualmente uma hora de material vídeo, incluindo imagens de arquivo dosmog mortal que se abateu sobre Londres, em 1952; das tempestades de poeira (Dust Bowl) que varreram os EUA nos anos 30; ou do discurso do presidente Jimmy Carter, em 1979, no dia em que colocou painéis fotovoltaicos nos telhados da Casa Branca – um gesto «amigo do ambiente» que foi desfeito, sete anos depois, pelo inquilino seguinte: Ronald Reagan.

Mais impressionantes ainda são as muitas animações (sobre o funcionamento de uma turbina, por exemplo, ou de uma central solar) e os infográficos interativos que vão revelando fatos adicionais, à medida que os exploramos com a pressão dos dedos. Num destes infográficos, se soprarmos no microfone do aparelho «produzimos» o vento que faz girar as pás de uma torre eólica. Quanto às imagens, podemos rodá-las, dobrá-las ou até puxá-las. Navegar entre capítulos é fácil (a leitura avança ou recua em dois eixos horizontais) e os vários blocos com informação mais detalhada estão elegantemente articulados com o texto principal.

Ao transformarem Our Choice numa aplicação, Mike Matas e Kimon Tsinteris (da Push Pop Press) desenvolveram uma plataforma tecnológica que permitirá criar, de forma cada vez mais rápida e fácil, livros com um potencial interativo ilimitado. Mas estaremos realmente a assistir aos primeiros passos do livro do futuro, essa quimera que fascina e assusta tanta gente? Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora e proprietário de um iPad2, não exclui essa hipótese. «O livro do Al Gore é fabuloso, sem dúvida. Abre possibilidades completamente novas no mundo da edição. Acho que este tipo de interatividade vai ser perfeita tanto para livros de divulgação científica como para a literatura infantil.» Não crê, porém, que seja aplicável às obras de ficção: «A verdadeira literatura exige um recolhimento que não se compadece com distrações acessórias.»

Fonte: Blog Livros e pessoas

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