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O bom-mocismo corrói a literatura, afirma Ruth Rocha

 

Escritora defende Monteiro Lobato e conta que já tentaram censurar o cachimbo do Saci em uma de suas histórias

Para Ziraldo, a essência da criança não mudou, e o Brasil tem a melhor produção de literatura infantil do mundo

DE SÃO PAULO

A admiração por Monteiro Lobato (1882-1948) é um dos fatores que unem Tatiana Belinky, Ruth Rocha e Ziraldo.

Belinky chegou a conhecer o escritor e, no começo dos anos 1950, ao lado do marido, o diretor Júlio Gouveia, adaptou o “Sítio do Picapau Amarelo” para a TV Tupi.

A recente polêmica envolvendo um dos livros de Lobato, “Caçadas de Pedrinho”, foi criticada pelos três.

Em 2010, um parecer do CNE (Conselho Nacional de Educação, órgão ligado ao Ministério da Educação) recomendava a retirada da obra publicada em 1933 do Programa Nacional Biblioteca na Escola. A alegação é que o livro é racista na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como os macacos.

O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal e segue ainda sem solução.

“Acho que existe um veneno que está corroendo a literatura infantil -o bom-mocismo. Literatura não é pedagogia, é arte”, diz Rocha.

A escritora conta que, da sanha do politicamente correto, nem mesmo o folclore tem escapado. Uma editora, por exemplo, chegou a sugerir cortar o cachimbo do Saci de um de seus livros.

Já Ziraldo recebeu reclamações de uma escola por usar a palavra bunda em “O Menino Maluquinho”.

RECEITA

Rocha diz que não há uma fórmula para se fazer um bom livro, mas que é fácil perceber quais receitas não seguir.

“O livro não pode ser moralista, não pode ter didatismo. Isso não me interessa.”

O que a motiva, desde que publicou seu primeiro título, em 1976, é exercitar a imaginação dos leitores com temas mais instigantes e complexos.

Na série “O Reizinho Mandão”, por exemplo, ela aborda a democracia, o autoritarismo e a corrupção. Tudo, garante, perfeitamente entendido pelas crianças.

Rocha escreve à mão e, apesar da concorrência acirrada com internet, TV e videogames, acha que o livro nunca vai perder espaço.

“A criança não liga para jogo. O único objetivo é ganhar. Já o livro movimenta o leitor emocionalmente, que se interessa pelos personagens. Isso faz toda a diferença.”

Rocha vem se dedicando nos últimos meses a relançar sua obra pela editora Moderna. Dos 140 livros que já escreveu, o grande xodó dos leitores é “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que já vendeu cerca de 2 milhões de cópias.

“A criança é mais esperta do que pensamos. Por isso sempre procuro mostrar uma irreverência, um olhar mais crítico sobre nossa realidade social”, conta.

MALUQUINHO

A política brasileira sempre foi uma constante nas charges de Ziraldo, seja em “O Pasquim” ou no “Jornal do Brasil”. Mas hoje, conta, não importa o que tenha feito, as pessoas só lembram dele como o pai de “O Menino Maluquinho”.

Publicado em 1980, o livro já chegou à centésima edição, vendeu quase 3 milhões de exemplares, inspirou dois filmes, peças, HQs, jogos e séries de TV.

“Virou uma instituição. Até por isso nunca senti necessidade de atualizar a história, de fazê-lo crescer. A essência das crianças não muda.”

A estabilidade financeira poderia garantir uma bela aposentadoria em frente à praia, mas, para Ziraldo, não há paisagem mais bonita que uma prancheta e uma caixinha de lápis.

Ele escreveu mais de 70 livros infantis, sendo o último “Os Meninos de Marte”, lançado em agosto. Pelo anterior, “O Menino de Mercúrio”, é um dos finalistas do prêmio Jabuti deste ano.

Até 24/10, quando completa 80 anos, é bem provável que o próximo já esteja a caminho das gráficas.

“Nós temos a melhor literatura infantil do mundo. Estamos bem à frente da ficção adulta atual do Brasil.” (MARCO RODRIGO ALMEIDA)

 

Publicado na Folha de São Paulo

 

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