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Munição em abundância

Fora de catálogo há três décadas, o livro “Parabélum”, de Gilmar de Carvalho, ganha agora sua segunda edição. Obra incontornável na história de nossa prosa de invenção, o romance será lançado, amanhã, no Armazém da Cultura

Há três infortúnios que assombram os escritores. O primeiro é, claro, o de não ser lido, de ter apenas o silêncio por crítico e interlocutor; o segundo, um desdobramento irônico do primeiro, é de escrever livros antes que hajam leitores para eles; e, por fim, uma alternativa cínica ao silêncio – o discurso vazio, quando o livro é mais comentado que lido.

Os três se abateram sobre “Parabélum”, romance escrito por Gilmar de Carvalho em meados dos anos 1970 e publicado em 1977. De lá para cá, esta primeira edição sumiu das livrarias e mesmo dos sebos, enquanto ascendia à condição de obra quase lendária, citada sempre que algum crítico ou comentarista desejava evocar os momentos altos da prosa de invenção no Ceará. Uma das consequências disto é que o livro tenha ficado três longas décadas condenado a esta primeira edição, impressa e distribuída às custas do autor.

Segunda edição

O livro chega agora a sua segunda edição, tão aguardada quanto necessária, via Armazém da Cultura. A nova edição, revista pelo próprio Gilmar de Carvalho, elimina os erros tipográficos da primeira e acrescenta uma única – e significativa – linha ao livro, a derradeira, eliminada no original, por receio do impressor quanto a possíveis problemas com a censura da Ditadura Militar.

“Parabélum” retorna com um bonito acabamento gráfico. Vem acrescido de um ensaio introdutório, assinado pelo escritor João Silverio Trevisan (“Devassos no Paraíso”, “Rei do Cheiro”), bem titulado como “O Herói e seus espelhos: ´Parabélum´ e o romance pós-moderno brasileiro”; e um texto, na orelha, da também escritora Ana Miranda, que decreta na primeira linha: “´Parabélum´ é um clássico”.

O livro é importante ainda para reencontrar um outro Gilmar de Carvalho, formalmente distinto do incansável pesquisador das artes e tradições do Ceará. E é assim, em tom de celebração e revisão, que o livro será relançado, amanhã, às 19h30, na sede do Armazém da Cultura. Na ocasião, o autor falará sobre a obra, numa discussão com jornalistas e com o pesquisador Saulo Lemos, autor de “Expectativas Heroicas: mito, história e leitura em ´Parabélum´, de Gilmar de Carvalho”.

Prosa de invenção

“Parabélum” traz explícitas as marcas da época em que foi escrito. O romance é registro de um tempo em que a literatura era sacudida por lampejos formais. A invenção, que nunca esteve restrita ao enredo, era tão mais radical no estilo. A língua se torcia, para falar de um cenário político, social, econômico e cultural cada vez mais difícil de compreender. Tratava-se de um radicalismo da criação verbal que teve momento mais agressivo nos modernismos, nas mais diversas literaturas.

Tanto que a classificação de romance não pode ser adotada sem certo conformismo. Narrador, história e personagens são inconstantes, mas não inconsistentes. A linguagem, carregada de símbolos, de substituições, aproximações e referências, é predominantemente intertextual. Parece caber ao “Parabélum” de Gilmar de Carvalho um adjetivo dado ao radical “Finnegans Wake”, obra final do irlandês James Joyce (1882 – 1941): noturno.

A linguagem parece ser a do sonho. No entanto, Gilmar está mais próximo do mineiro Guimarães Rosa, que achava a prosa joyecana demasiado “cerebral”. E este, em definitivo, não é um trabalho que caiba ao único romance da obra de ficção de Gilmar de Carvalho.

A arquitetura é complexa: o evangelho é uma base, mas o tom profético é confrontado com o materialismo da cultura de massas, das referências à infeliz situação política do País à época, do vocabulário e do registro de hábitos das camadas subalternas do Nordeste brasileiro. Os capítulos são breves e, a medida que se sucedem, o personagem se metamorfoseia – num encadear de tipos rebeldes. Nasce como Cristo, a revolta pura; transmutasse em Lampião, a insurreição sem consciência política; e chega ao Che Guevara, ainda não convertido em estampa de camiseta, que confere ordem ao incômodo que o acompanha a cada passo.

Romance forte, violento até, “Parabélum” traz a marca da escrita acadêmica e jornalística de Gilmar de Carvalho. Uma escrita bem urdida, que, com delicadeza, dá ordem a elementos demasiado livres, caso da tradição popular, que não se deixa engolir. Canibaliza, como ensina o modernista Oswald de Andrade (1890 – 1954), para nutrir-se de seus inimigos.

DELLANO RIOS
EDITOR

Entrevista

Saulo Lemos*

“De certa forma, ´Parabélum´ se afirmou: em sua marginalidade”

“Parabélum” tornou-se um livro meio mítico na história da literatura cearense. Contudo, à época do lançamento, não foi um sucesso. Trata-se de uma obra incompreendida?

Quando a gente observa as tradições culturais da época, o romance brasileiro dos anos 70, a cultura contemporânea, etc, a primeira impressão é que foi um caso de incompreensão, uma injustiça contra o “Parabélum”. Mas tento associar a esta perspectiva, que não é incorreta, uma outra: é mais ou menos normal que um livro como este, num lugar como o Ceará, não possa fazer sucesso. A começar pela questão da leitura, porque ainda há muitos analfabetos e, mesmo para quem sabe ler, trata-se de um livro que exige uma formação muito específica do leitor. Além disso, a sociedade cearense é, predominantemente, conservadora. Os grupo predominantes, que querem saber de literatura, estão mais interessados em sonetos, em uma literatura realista de gosto passadista. Não acredito que o Gilmar esperasse por isso (a boa acolhida do livro) na época. Essa pouca aceitação do ´Parabélum´ não se deve apenas a sua busca pela experimentação de vanguarda. Na verdade, da perspectiva da própria vanguarda, ele é problemático. O romance tem esse tipo de texto complexo, muito voltado em si mesmo, que atira referências para todo lado, tem esta descontinuidade entre mundo exterior e o livro… Além disto, a experimentação formal não tão comum no Ceará. O Grupo Clã, por exemplo, era vanguarda para cá, mas não podia ser assim considerado em âmbito nacional. “Parabélum” exigia uma estratégia de afirmação cultural para se afirmar. E, de certa forma, se afirmou: em sua marginalidade.

Que posição esta obra ocupa entre os demais escritos literários de Gilmar de Carvalho?

No “Parabélum” e no “Restos de Munição” (muito próximo daquele, já que traz textos que fariam parte do romance), você se vê diante de uma linguagem que ora te acolhe, ora te sufoca. Você tem isso no restante da obra literária. Quanto a essa busca específica, que se reveste numa preocupação política, de demarcar um espaço do eu que coletiviza, as obras posteriores caminham num rumo um pouco diferente. Enquanto “Parabélum” é um tipo de síntese da literatura brasileira dos anos 1970, “Pequenas Histórias de Crueldade” e “Buick Frenesi”, como ele diz, é um livro mais de “escracho”, de desconstrução da literatura que ele fazia. E é assim porque vêm em outro contexto, com algumas outras referências. Não digo que seja um momento pessimista. Prefiro vê-lo como o Caio Fernando Abreu, uma obra que tem um pulsão de morte, mas também uma pulsão de vida.

Não sei se você conhece bem a obra não-literária do Gilmar de Carvalho. É possível encontrar traços do escritor, do literato, neste trabalho jornalístico, semiológico de hoje?

A gente pode mencionar de cara a infiltração dos elementos da cultura popular. O ´Parabélum´ é quase um romance de formação, ou de “desformação” (na falta de uma palavra melhor), de seu protagonista. Em determinado momento, ele é Lampião, que vai se confrontar com o Padre Cícero. Há uma busca direta da tradição, que, como sabemos, é uma busca forte na carreira acadêmica do Gilmar de Carvalho.

*Professor de Literatura da Universidade Estadual do Ceará
(Uece), em Iguatu. Autor do livro “Expectativas Heroicas”

Romance

Parabélum
Gilmar de Carvalho

ARMAZÉM DA CULTURA
2011
261 PÁGINAS
R$ 55

LANÇAMENTO amanhã, às 19h30, no Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154, Aldeota). Contato: (85) 3224.9780

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

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