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Moleskines e o mito que a gente compra

Por Carol Bensimon

Você certamente já ouviu falar dos moleskines, aqueles caderninhos pretos com um elástico e páginas pólen, os quais, como lhe informa a cinta de papel assim que você desembolsa €11,50 por um modelo padrão — há moleskines de grandes dimensões, e agendas, e bloquinhos especiais para cidades importantes do mundo — é o “lendário bloco de notas usado por Hemingway, Picasso, Chatwin”. Ao desembalar a pequena joia, mais nomes de peso vão surgir a sua frente em um folheto detalhado que abarca a “história” dos moleskines (isso se você não tiver feito a compra já inebriado pelo seleto grupo de ex-usuários): Van Gogh, Matisse, Oscar Wilde, Céline, Apollinaire. Mas o que podemos dizer é que, se todos esses monstros das artes estivessem vivos, ficariam felizes em processar a empresa atualmente sediada em Milão, cujos cadernos são fabricados na China em razão da experiência milenar do país com o papel (aham), vendendo 4,5 milhões de unidades por ano em todo o mundo. Por quê? Chegaremos lá. Antes de prosseguir, no entanto, é preciso dizer:

— Não se deixe enganar pela minha língua afiada. Eu uso moleskines.

A questão envolvendo a veracidade parcial dessas informações — Hemingway usou, Van Gogh fez esboços neles, etc— vem do simples fato de que a empresa que os fabrica foi criada em 1998. Isso. Quando Chumbawamba colocava a canção “Tubthumping” nas paradas de sucesso do mundo. Quando Bill Clinton maculava o vestido azul de Monica Lewinsky.

O que acontece é que todos esses artistas citados usavam cadernos de bolso com capa de couro ou tecidos envernizados, de diferentes fabricantes e procedências, mas que, num golpe sensacional e maldoso de marketing, foram considerados todos como membros da recém-criada família moleskine. Palavra que, aliás, vem de pele de toupeira. Hemingway, em Paris é uma festa, menciona que estava escrevendo um conto em um caderninho. Essa simples passagem foi a responsável por colocá-lo no rol de usuários do caderno preto. Mesmo que o dele fosse azul.

Mas o interessante, a partir disso, é pensar no que nos leva a consumi-lo. Seremos melhores escritores porque temos um moleskine? Estaremos, ao tomar notas em um específico caderninho, dialogando com escritores e poetas do passado? Eu diria: é claro que queremos mais do que tudo acreditar na mágica da ferramenta. Angustia-nos saber que, no fim das contas, tudo depende de nossas cabeças e do trabalho pesado. O fotógrafo quer a melhor câmera, o desenhista cobiça uma caixa de lápis Caran d’Ache, a nós sobra o simples papel que, aliás, já não faz mais parte do processo de escrita propriamente dito (não para as novas gerações, ao menos); resta o bloquinho para anotar ideias soltas na mesa de um café. O que lança uma outra hipótese: será o moleskine o rótulo que queremos colar em nós mesmos? No espaço público, para quem domina o “código”, ele prontamente nos identifica como artistas cheios de ideais.

Além do desejo de pertencimento, e da possibilidade de comprá-lo, entrando imediatamente em um grupo seleto, precisamos manter uma ponte com o passado. Não estamos bem certos de que as coisas mudaram para melhor. As câmeras fotográficas estão aí, mais fáceis e fiéis que nunca, mas estamos fartos do realismo, queremos manchas nas imagens, cores distorcidas, memórias de 5 minutos atrás que já nasçam velhas de décadas. O Word está aí, e os softwares que criam curvas dramáticas para o seu romance em andamento, e fichas de personagens e sei lá mais o quê. Mas a gente ainda quer ver nossa letra no papel, a gente quer riscar as palavras, ter más ideias que não possam ser apagadas,  e sentir que está fazendo o mesmo gesto que um poeta um dia fez em uma trincheira na Primeira Guerra.

P.S. 1: grande parte das informações citadas foram retiradas do artigo Le “Moleskine d’Hemingway” ou la magie du marketing.

P.S. 2: existe uma infinidade de sites dedicados a desenhos feitos nas páginas dos moleskines. Aqui há um exemplo disso. Repare que o que gostamos de ver não é somente o desenho em si, mas o fato de ele estar inserido no caderno. Como se isso desse um tipo de veracidade louvável, ausente em uma simples imagem feita à mão e passada para o computador. Ou eu posso estar falando bobagem.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog da Cia com uma coluna quinzenal.

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