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Memórias do jornalismo cearense

Jornal Diário do Nordeste

27.01.2011

Capítulo da história jornalística do escritor Jáder de Carvalho, o Diário do Povo tem sua trajetória revista em livro do historiador João Alfredo Montenegro

Ao abrir as páginas desde jornal ou de qualquer outro encontrado em uma banca de Fortaleza, o leitor (sobretudo se for ele das gerações mais jovens) talvez tenham esquecido de que jornais já foram feitos de forma absolutamente artesanal, letra por letra, espaço por espaço. E mais: apesar de estarem a léguas dos recursos das grandes empresas de comunicação atuais, assim mesmo foram responsáveis por um espaço de denúncia e reflexões fundamentais para sua época.

O jornalista e escritor Jáder de Carvalho (1901 – 1985) se notabilizou no jornalismo brasileiro, tornando-se uma das figuras mais importantes da imprensa no País, exatamente por se lançar a uma empreitada de fôlego, fundando dois jornais, A Esquerda e o Diário do Povo, nos quais defendia ideias de vanguarda para a sua época.

Esse personagem, de uma geração incendiária, que acreditava no uso adequado da palavra para defender a sociedade e fazer denúncia, é resgatado pelo historiador João Alfredo Montenegro, na obra “Jáder de Carvalho e o Diário do Povo”. O livro será lançado nesta quinta-feira, às 19h30, no Centro Cultural Oboé (Rua Maria Tomásia, 531 – Aldeota).

Diário do Povo

Além de resgatar o perfil do jornalista, João Alfredo Montenegro contribui com a memória do Diário do Povo, jornal com início tímido, poucos recursos, mas que terminou por se tornar um veículo de valor imemorial para a imprensa do Estado. Um dos grandes méritos do jornal foi sua circulação, por 12 anos, em pleno Estado Novo.

Como bem define o jornalista Cid Carvalho, da Academia Cearense de Letras, filho de Jáder. Ele escreve no prefácio: “o jornalismo de Jáder de Carvalho, assim, era explosivo e vulcânico e procurava um ajuste de contas com políticos comprometidos com a ditadura de então”.

Montenegro teve acesso ao acervo do Diário do Povo no Instituto do Ceará, detentor da coleção completa do periódico, doada pela família Carvalho. A pesquisa para o livro foi complementada pelos depoimentos da família e de amigos. “A colaboração de Cid Carvalho, por exemplo, foi fundamental para recuperar a história que eu queria contar”, explica o autor.

O historiador acrescenta que decidiu fazer um perfil de Jáder de Carvalho por se tratar de um personagem que sempre chamou sua atenção, não podendo ser esquecido pelos mais jovens, não apenas aqueles ligados ao jornalismo, mas por todos os cearenses”. “Em sua época, Jáder talvez tenha sido o único de posição independente. Digo isso não apenas em relação ao Estado do Ceará, mas numa leitura macro do jornalismo dos anos de 1940 e 1950″, defende.

Ideias

O livro resgata ideias do jornalista de esquerda, que não dava ponto sem nó, nem mesmo quando desafiado por seus desafetos. Isto fica claro em vários episódios recuperados por João Alfredo Montenegro, como quando Jáder de Carvalho questionou um policial por ter ouvido falar que seria por ele assassinado.

O leitor também tem acesso a uma visão panorâmica de temas tratados pelo jornalista, uma diversidade que ia da defesa da Amazônia até a questão política de exploração do petróleo brasileiro.

Jáder de Carvalho criou seu próprio lugar de acesso à voz. Não se intimidou com a falta de recursos, muito menos com as condições políticas adversas a partir do Estado Novo. Durante seus primeiros meses, o Diário do Povo foi editado nas oficinas do jornal O Estado, dirigido por Walter de Sá à época. Além de não contar com linotipos, a primeira máquina impressora só imprimia duas páginas por vez, por meio de força humana, em pleno começo do século XX.

Como recorda o jornalista Cid Carvalho, “era uma tarefa hercúlea construir o jornal, dia a dia com velhos tipógrafos como Cacildo e Petrônio, uma vez que contratara velhos trabalhadores de larga experiência no setor, quase sempre homens com cerca de setenta anos de idade”. Era literalmente na força que o jornal era feito, quando um único operário fazia girar uma enorme roda de ferro que impulsionava o prelo.

Colaboradores

Os primeiros colaboradores do Diário do Povo eram pessoas ligadas à Jáder de Carvalho no Liceu do Ceará, onde o jornalista lecionava história. Vale lembrar que essa disciplina caiu em suas mãos uma vez que a ditadura de Getúlio Vargas o proibira de ensinar Sociologia, sua área de atuação original.

É interessante ainda notar que o jornal aproveitava sua próprias páginas para criticar a censura do Estado Novo. Na edição do dia 1º de novembro de 1947, o editorial falava sobre a prisão dos originais de sua primeira edição: “O Diário do Povo, antes mesmo de circular, teve os originais de sua edição de estreia apreendidos pela polícia, e presos o seu secretário e dois revisores, num atentado inominável à Constituição e à consciência democrática do povo cearense. Confortou-nos, entretanto, o protesto geral dos democratas brasileiros, que em todo o País, pela imprensa, pelo rádio, da tribuna do Congresso e da praça pública exteriorizavam a repulsa à atitude nazi-fascista do governo do desembargador sem leu, sem luz e sem inteligência…”.

Ensaios

Jáder de Carvalho e o Diário do Povo
João Alfredo Montenegro

Armazén da Cultura
2011
162 páginas
R$ 20

Lançamento às 19h30, no Centro Cultural Oboé (Rua Maria Tomásia 531).
Contato: (85) 3264.7038

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