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Memória: Academia Cearense de Letras

Com 116 anos de atividade, a Academia Cearense de Letras é a mais antiga do gênero no Brasil. A entidade abriga hoje outras 14 instituições dedicadas à Literatura.

Você vem andando ali no ruge-ruge do centro da cidade de Fortaleza, gente vendendo de tudo, barulho ensurdecedor, poluição de cores, caos no trânsito, sujeira e, no miolo desse mundo tão peculiar quanto antigo, eis que surge a casa da Rua do Rosário, número 1, construída no século XVIII, formando quadrilátero para as ruas Sena Madureira, Guilherme Rocha e praça General Tibúrcio, e, há 21 anos, abrigo da Academia Cearense de Letras (ACL).

Dar uns poucos passos e se permitir estar no Palácio da Luz, é como chegar a um universo paralelo, literalmente, oposto à realidade externa. Lá dentro tudo é silêncio, sobriedade, elegância e solenidade. O Diário do Nordeste adentrou as portas da primeira academia de letras do Brasil e esquadrinhou muitos dos segredos guardados entre suas muralhas “de 384 palmos de extensão”, hoje quase imperceptíveis ante os prédios quase modernos que descaracterizaram os arredores do patrimônio tombado pelo Estado em 1983.

E o mundo que habita ali é mesmo vasto. Aos primeiros passos no amplo salão de tábua corrida de maçaranduba, madeira amarga que cupim não rói, as paredes em arco dão indícios de histórias vibrantes, registros curados pela ação do tempo, e sabedoria legada pelas mentes brilhantes que perpetuam vida ali até hoje.

Na antiga casa de eira, beira e tribeira, afora alguns traços reminiscentes, como as passagens arqueadas e a gradaria de ferro que dá acesso à rua debaixo, já quase não é mais possível identificá-la a um movimento arquitetônico específico. Mas é lá, no meio das paredes que aparentam refletir apenas memórias, que é possível encontrar a energia vibrante de Regina Pamplona Fiúza, diretora administrativa da ACL há 17 anos, e uma das principais responsáveis pela elegância do lugar.

Além de testemunha ocular da história, a gestora é bisneta do padeiro-mor da Padaria Espiritual, e um dos fundadores da Academia Cearense de Letras, José Carlos da Costa Ribeiro Junior, prima de Eduardo Campos e sobrinha de Artur Eduardo Benevides, ambos ex-presidentes da ACL. E a história se perpetua. “Quando Artur Eduardo Benevides assumiu a presidência, decidiu abrir a ACL para outras entidades culturais. Ele dizia que era para trazer luz à Academia. Hoje abrigamos 14 organizações que vieram engrandecer e dinamizar esse lugar”, ressalta Regina Pamplona.

E fez-se a Luz. Hoje, mensalmente, a nata da intelectualidade cearense se encontra no prédio que fora Palácio do Governo. Entre os convidados ilustres, estão: Academia Cearense da Língua Portuguesa; Academia Feminina de Letras; Academia Fortalezense de Letras; Academia Cearense de Retórica; Academia Ipuense de Letras; Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE); Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza; Associação Brasileira de Bibliófilos; Associação Cearense de Geografia e História; Associação de Jornalistas (AJEB); Sociedade Amigas do Livro; a Associação Brasileira dos Trovadores, além de entidades informais, como Terça Feira em Prosa e Verso; Idade Dourada; e Instituto do Ceará.

Abrigo da cultura

Para o escritor Francisco Lima de Freitas, que além de presidir a ALMECE há 14 anos, é membro de outras quatro academias, o Palácio da Luz é, hoje, o reduto da cultura cearense. “É preponderante o abrigo da ACL para atrair quem gosta de arte e cultura. Aquele lugar é palco de festas memoráveis, noites inesquecíveis, realizadas com todo rigor. Para ter ideia, nossas reuniões contam com soprano, tenor, pianista, além de oradores dotados de extraordinária eloquência”, destaca.

E tudo com a pompa e a circunstância que a liturgia do tema exige. Pelas salas e corredores que exibem, além do belíssimo afresco de Raimundo Cela, fotografias de Rachel de Queiroz, Moreira Campos, Natércia Campos, galeria com integrantes da Padaria Espiritual e acervo de pinturas de ex-presidentes, hoje, circulam nossos atuais “artistas das palavras”.

A presidente da AJEB, Maria Luiza Bonfim, acredita que o caminho para o fortalecimento da cultura é a valorização de livros e escritores. “Não fosse o espaço que temos aqui na Academia para nos encontrarmos, seria muito mais difícil. Aqui realizamos conferências, palestras, desenvolvemos informativos, antologias, enfim. Para estar conosco só tem que gostar de literatura, não precisa nem escrever”, assegura Luiza.

Novos imortais

Por enquanto o período ainda é para guardar o luto. Mas, próximo dia 10 de junho, a Academia Cearense de Letras declarará aberta vaga para duas candidaturas à imortalidade, devido a partida, no mês de abril, dos escritores Vinícius Barros Leal e Abelardo Montenegro. “Qualquer um pode se candidatar, mas a comissão é rigorosa. A partir da publicação oficial, temos que esperar dois meses de avaliações”, explica Regina Pamplona.

E, no Salão Nobre, 10 expositores de vidro exibem a obra de 40 acadêmicos, selecionados do acervo de mais de 50 mil títulos que se espraiam por estantes coloniais. Lá no final da casa grande, onde outrora fora porta de entrada, dona Madalena Monteiro, bibliotecária dedicada à literatura cearense há mais de 30 anos, e conhecida pela boa memória, ajuda a recontar a história.

“Temos a biblioteca Justiniano de Serpa; a coleção João Carlos Neto, de autores cearenses e livros sobre o Ceará; o Memorial da Academia Cearense de Letras, que inclui obras do acervo de acadêmicos falecidos; coleção Fran Martins, de livros raros; coleção Martins Filho; coleção Moreira Campos; biblioteca Olga Barroso, da Sociedade Amigas do Livro, e que inclui, também acervo do ex-governador do Ceará, Parsifal Barroso, e outros”, disserta Madalena.

Mas as atividades não param por aí. Próximo dia 24 de maio, às 19h, na sede da Academia Cearense de Letras, o atual presidente da casa, Pedro Henrique Saraiva Leão, entregará a primeira medalha Cláudio Martins, que, se vivo fosse, teria completado 100 anos dia 10 de maio de 2010, ao atual senador Tasso Jereissati.

“Essa será uma homenagem justa, já que todos nós, tanto a Academia Cearense de Letras, quanto as 14 organizações que aqui se reúnem, desfrutamos desse prédio doado em uma das gestões do então governador Tasso Jereissati. Será uma solenidade inesquecível”, assegura o médico.

E dona Rachel permanece lá, representada na estátua esculpida pelo artista plástico, Murilo de Sá Toledo, sentada na praça dos Leões, admirando aquela movimentação toda em volta da casa onde tantas vezes lamentou não fazer parte. “Todos os meus colegas da Academia Brasileira de Letras fazem parte das de seus Estados. Esse é um dos momentos felizes de minha vida”, disse à Regina Pamplona Fiúza, no dia de sua posse, realizada em 1994, no centenário da ACL.

Fonte: Diário do Nordeste

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