Livros de ciência bons, grátis e dentro da lei

Rafael Garcia para a Folha de São Paulo

Tenho acompanhado de lomge o debate que se delineou em torno do site Livros de Humanas, processado pela ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) por pirataria. Para quem não ouviu falar da polêmica ainda, trata-se de um estudante que indexava links de cópias de livros em PDF para ajudar outros universitários  com as leituras necessárias a seus cursos.

O réu do processo, Thiago, já foi entrevistado pela Josélia Aguiar,
do blog Livros Etc, por isso não vou discutir aqui as questões de legalidade.
Quero apenas falar de um projeto americano que está encontrando solução para um problema que não é exclusivo do Brasil: bancar a leitura de um curso de graduação sem usar fotocópias é simplesemente caro demais. Não conheço ninguém da minha geração que não tenha apelado ao velho xerox (os mais jovens preferem os PDFs) para dar conta de adquirir toda a leitura necessária.

Aqui nos EUA, o problema me parece ser pior nos cursos de exatas e
biológicas, que requerem livros-texto bastante caros —na faixa de US$ 100 ou US$ 200. Muitos estudantes recorrem a sebos, mas as editoras buscam tirar de
circulação os livros usados, acrescentando mudanças de conteúdo nas novas
edições. Algumas alterações são apenas cosméticas, com intuito único de sabotar as edições antigas, mas é difícil se dar conta disso sem analisar o livro
inteiro.

Para contornar o problema, o projeto OpenStax College, da Universidade
Rice, de Houston, começou a publicar em fevereiro uma série de livros-texto
escritos por equipes de cientistas de alto nível. Os livros, de qualidade
suficiente para competir com obras que estão liderando o mercado agora, estão
disponíveis de graça para download em PDF. Podem também ser comprados
encadernados pelo preço de custo da impressão/distribuição. Sai cerca de US$ 40 para um livro-texto colorido, de formato grande, com 1.200 páginas.

O OpenStax está sendo bancado agora por generosas doações de filantropos
milionários —Bill Gates, da Microsoft, e William Hewlett, da HP, entre eles—,
mas a idéia é que se torne menos dispendioso no futuro. Uma vez que os livros
estiverem prontos, será preciso fazer apenas o trabalho de revisão e
ampliação.

Folheei hoje um exemplar de “College Physics” (física para
graduação), que me pareceu ser bastante organizado, bem redigido, abrangente, bem ilustrado e didático. (Físicos leitores deste blog certamente podem dar um parecer melhor que o meu.)

Além desse título, o projeto já lançou está lançando neste ano “Biology”, “Concepts in Biology”, “Introduction to Sociology” e “Anatomy and Physiology”. A meta inicial é providenciar obras para cobrir as 20 disciplinas mais cursadas em universidades dos EUA. Em entrevista ao “New York Times”, o diretor do projeto, Richard Baraniuk, disse que se os cinco primeiros volumes garfarem apenas 10% do mercado em que estão entrando, estudantes economizariam em conjunto  US$ 90 milhões só nos primeiros cinco anos.

Curiosamente, é um valor na mesma ordem de grandeza do processo contra o site Livros de Humanas, no qual a ABDR pede R$ 200 milhões. O que eu me pergunto, então, é se um projeto como o OpenStax pode ter seu modelo copiado no Brasil.

Talvez seja difícil levantar uma grana dessas no país, onde filantropos entusiastas da ciência estão em falta.
Uma coisa legal do projeto americano, porém, é que não são só os ricaços que
estão colaborando. “College Physics” foi baseado em grande parte no livro-texto
homônimo do físico Peter Urone, que adquiriu os direitos autorais da obra e os
doou ao OpenStax, conforme conta Marc Sher. (Um exemplar do livro original de Urone ainda estava à venda ontem na Amazon por mais de US$ 200.)

Talvez alguns autores brasileiros se prestem a fazer o mesmo, caso não exista
dinheiro para bancar um projeto grande logo de cara. Talvez seja necessário
adotar outro modelo. Uma dificuldade a mais é que a maioria das disciplinas
universitárias de humanas não se ancora em livros-texto e requer leituras mais
fragmentadas. De qualquer forma, acho irônico que o Brasil, um país onde quase toda a produção acadêmica sai de universidades públicas, esteja com tanta dificuldade para encontrar uma solução.

Nos EUA, Bill Gates, um capitalista que passou boa parte de sua história
enfrentando a pirataria de software, está agora ajudando a bancar um projeto que vai licenciar todos os seus produtos com acesso aberto. Talvez o jogo de
interesses que favorece a manutenção de oligopólios editoriais no setor de
livros didáticos esteja finalmente mudando em face das novas tecnologias. E no
Brasil?

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CORREÇÃO: Apenas os livros de
física e sociologia do OpenStax estão disponíveis agora. Os títulos da área de
biológicas serão lançados só após o meio do ano.

 

 

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