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Livraria Cultura terá duas filiais no Rio

A centenária máquina de escrever adaptada conecta-se por um cabo ao iPad, que faz as vezes de folha de papel. Ao digitar, o texto aparece como mágica no bloco de notas do tablet da Apple. A engenhoca foi um presente dos filhos, Fabio e Sergio, a Pedro Herz, dono e presidente da Livraria Cultura. É uma boa metáfora para descrever o livreiro que, aos 69 anos, olha para o futuro consciente de que algo no passado desperta saudades. E o futuro mais imediato de Herz está no Rio de Janeiro.

No segundo semestre deste ano ele inaugura duas filiais cariocas, a maior delas com 3.300 metros quadrados, no Centro, onde funcionava o Cine Vitória (Cinelândia). A outra ocupará 1.000 metros quadrados no shopping Fashion Mall. O arquiteto Fernando Brandão, criador das 11 outras lojas da rede, começou a desenhar os projetos esta semana. A identidade será a mesma da sede que ocupa 4.300 metros quadrados no Conjunto Nacional, em São Paulo, e atrai mais de 60 mil compradores por mês. Serão contratados 180 funcionários e, graças à altura do pé-direito do antigo Cine Vitória, será possível incluir no pacote a quarta filial do teatro Eva Herz, que já existe em São Paulo, Brasília e Salvador e tem como diretor artístico o ator e diretor Dan Stulbach.

– Vamos chegar ao Rio com a mesma identidade, o mesmo RG, CPF, tipo sanguíneo, tudo igual. Claro que a gente se modernizou. Se você olhar o primeiro projeto fora do Conjunto Nacional (a loja do shopping Villa-Lobos, aberta em 2000), há evolução, mas a identidade jamais perderemos – adianta Herz, em seu escritório no nono andar de um dos edifícios do Conjunto Nacional, que abriga há seis meses uma fotografia emoldurada do Corcovado, presente recebido de uma amiga, simbolizando sua torcida pela expansão rumo à Cidade Maravilhosa.

A identidade à qual Pedro se refere tem mais a ver com a atmosfera acolhedora de sua livraria do que com o tamanho. Ele não gosta de modismos (“É melhor não estar na moda, pois sua duração é muito pequena”), tampouco valoriza o consumismo excessivo (“Para que trocar de carro todo ano ou comprar um novo computador mais avançado se não uso nem metade da capacidade do que eu tenho?”), mas acredita no encontro e na troca.

Estantes abarrotadas de livros, DVDs e CDs, de diversos assuntos e nacionalidades, são um convite à curiosidade. Sofás, poltronas e pufes estrategicamente espalhados pela loja aconchegam aqueles que querem degustar a mercadoria, sem compromisso. Mais do que uma loja, a Cultura é uma espécie de praça pública moderna, onde bate-papos podem ser embalados por shows gratuitos de música ou trocados por saraus literários e palestras com escritores. Herz dá sua contribuição para formar leitores, mais do que consumidores, apesar de acreditar com veemência que o hábito da leitura passa de pai para filho.

” A demora foi porque a geografia não nos ajudou muito. No Rio, um prédio está encostado no outro. Não há espaço. E nós queríamos uma área em que coubéssemos, queríamos chegar com a mesma carteira “


A inauguração da filial no Rio é sonho antigo, que só se concretizou após a abertura das lojas em Brasília, Campinas, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e Salvador. A explicação para a demora é geográfica, pois demanda existe: os cariocas são os segundos maiores compradores do site da livraria, perdendo apenas para os paulistas. E isso não é pouco. O faturamento na internet só é menor do que o da gigantesca matriz paulista, correspondendo a 18% da receita da empresa.

– A demora foi porque a geografia não nos ajudou muito. No Rio, um prédio está encostado no outro. Não há espaço. E nós queríamos uma área em que coubéssemos, queríamos chegar com a mesma carteira. Para isso, eu precisava de um mínimo de metros quadrados – explica Herz, estimando para o Rio um catálogo físico nas lojas de 150 mil títulos, sem contar revistas, CDs e DVDs. – Temos uma experiência interessante. Quando abrimos uma loja física, a venda pela internet na região cresce. Tenho a impressão de que o consumidor se sente mais amparado – completa.

Herz não se aventura a prever o futuro, mas acredita que a enxurrada de conteúdos digitais para serem consumidos em tablets, celulares e computadores não representa o início do fim do livro físico e das livrarias do mundo real. Tanto que já começa a sonhar com a inauguração de sua primeira filial em Minas Gerais e prepara-se para abrir o capital da livraria.

— Se você sabe o que quer, a internet é uma mão na roda. Mas o hábito da compra é prazeroso. Também não vejo tanta gente com e-readers. Da última vez em que fui aos Estados Unidos, até contei. Só vi duas pessoas no metrô com iPads. A pergunta mais importante não tem nada a ver com digital e analógico. É: teremos mais leitores? Ninguém expandiu o dia, que continua a ter as mesmas 24 horas. Muitas vezes me pergunto se as pessoas querem mesmo essa velocidade toda. Com o bombardeio de coisas a fazer, fazemos tudo em fatias menores. Ler é uma atividade solitária. Requer concentração, sossego – conclui, nostálgico de um tempo em que éramos menos dispersos.

Fonte: O Globo

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