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Histórias de Livros: O Gráfico Amador

Um livro como obra de arte é inevitavelmente de luxo? Para quatro rapazes do Recife do final dos anos 1950, era, sim, possível fazer belas edições, “arte de vanguarda”, como queriam, numa gráfica praticamente caseira, com baixo custo.

Antes, é preciso explicar: o “amador” do título quer dizer “amante”, “entusiasta”, e não “diletante” ou “mambembe”.

De 1954 a 1961, o Gráfico Amador fez livros artesanais, em pequenas tiragens, para, entre outros, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Brennand, Ariano Suassuna. O grupo de “editores-artesãos” era formado por Aloisio Magalhães, que se tornaria um dos principais nomes do design brasileiro nas décadas seguintes, Gastão Holanda, José Laurênio de Melo e Orlando da Costa Ferreira.

A história desse movimento pernambucano é contada em “O Gráfico Amador: As Origens da Moderna Tipografia Brasileira”, de Guilherme Cunha Lima, resultado de sua tese de doutorado. As obras editadas pelo Gráfico Amador são “raríssimas e nunca foram publicadas na íntegra”, explica Valéria Lamego, fundadora da editora carioca Verso Brasil, que organiza até novembro a reedição do livro de Cunha Lima, pela primeira vez com reprodução de todas as publicações. “Não há biblioteca particular ou pública que mantenha uma coleção completa delas”, diz.

Por sua concepção e produção, a pequena editora pernambucana destoava do que predominava no eixo Rio de Janeiro-São Paulo na época, como escreveu o historiador Emanuel Araújo, autor do clássico “A construção do livro”. Os rapazes romperam, segundo ele, a “corrente de mediocridade”, ao criar uma editora que seguia a melhor tradição das “private presses” inglesas: a Kelmscott de William Morris, a Gregynog das irmãs Gwendoline e Margaret Davies.

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Na Bahia, em 1957, com propósito bem parecido e alcance possivelmente menor, o cineasta Glauber Rocha, o gravador Calasans Neto, o poeta Fernando da Rocha Peres e o jornalista Pedro Gil Soares fundaram a Edições Macunaíma. Prometo contar depois essa história aqui.


Por Lúcia Gaspar, bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco, escreve sobre O Gráfico Amador.

 

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