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Gazetaesportiva.net entrevista autor de Uma história das Copas do Mundo

Holanda refaz fortaleza para não ser expulsa do Ceará outra vez

Helder Júnior, enviado especialFortaleza (CE)

A Holanda já conta com uma fortaleza de torcedores na capital cearense. Com milhares deles vestidos de laranja espalhados pelas ruas da cidade, o país europeu está próximo de reviver uma importante passagem da história do Estado enquanto enfrenta o México por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, neste domingo, no Castelão.

Em 1649, o grande castelo holandês estabelecido no Ceará ficava à margem esquerda da foz do riacho Pajeú, sobre o monte Marajaitiba. Foi ali que Matias Beck, comandante da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, ergueu o Forte Schoonenborch, ao redor do qual nasceu o município de Fortaleza.

“Há historiadores que veem Marias Beck como o fundador de Fortaleza. Ainda assim, a marca holandesa na cidade é muito pequena, já que eles acabaram expulsos pelos portugueses logo, em 1654, e não costumavam se misturar com as índias. Mas veja como a história tem os seus reencontros. Ironicamente, o Ceará volta a ser vítima de uma invasão laranja agora”, comentou o historiador Aírton de Farias, com uma série de livros sobre as origens do Ceará e também sobre futebol já publicados. O último deles é “Uma História das Copas do Mundo”, da editora Armazém da Cultura.

Divulgação

Fortaleza se desenvolveu ao redor do antigo forte holandês, hoje Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção

Com a propriedade de quem gosta de relacionar os eventos esportivos com os históricos – já começou a vislumbrar um novo livro, sobre as Olimpíadas –, Aírton de Farias preferia que o vínculo da Holanda com Fortaleza tivesse sido mais explorado durante a Copa do Mundo.

“Fala-se muito do elo holandês com Pernambuco, mas houve o período de domínio do Ceará. Fortaleza era um local estratégico, no caminho do Maranhão, e o açúcar tinha valor de petróleo na época. Costumo dizer que a existência da cidade é um milagre, pois não há porto, o solo é ruim… A fundação se deve também aos holandeses. Talvez fosse interessante lembrarmos isso agora, que a Holanda vem jogar aqui. Infelizmente, não foi feito nenhum projeto cultural”, lamentou o escritor.

De fato, o estímulo é muito pequeno. Atualmente com o nome de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, conforme acabou rebatizado na retomada por parte da Coroa Portuguesa, o antigo Forte Schoonenborch passou a abrigar a Décima Região Militar do Exército Brasileiro. As visitações às instalações históricas são controladas.

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Historiador lamenta que a capital cearense não tenha explorado o seu vínculo com a Holanda

No dia em que a Gazeta Esportiva esteve na fortaleza, os militares informaram que só seria possível fotografar a fachada e o exterior do prédio. Tudo sob a supervisão de uma guia da Prefeitura, que chegaria ao local em meia hora. Àquela altura, um grupo de torcedores uruguaios já havia se juntado para acompanhar o passeio. Outro, composto de italianos, pedia autorização para tirar fotos com telefones celulares. “O que teria sido isso aqui?”, perguntavam-se.

Quando a guia chegou, houve uma lamentação ao saber que alguns dos visitantes falavam espanhol. “Já vou avisando que não sei me comunicar na língua de vocês”, ela alertou, aderindo à norma militar de não conceder entrevistas sobre a fortaleza. “Não teria tanto impedimento da minha parte, mas não gosto de aparecer”, advertiu, preocupada porque estava atrasada para almoçar.

Rapidamente, a guia explicou aos uruguaios, que ouviram atentamente a explanação em português, sobre a ligação da Holanda com aquela fortaleza. O pequeno museu militar que funciona no local estava fechado. O ponto alto da visita, portanto, foi o calabouço subterrâneo onde teria sido aprisionada Bárbara de Alencar, revolucionária da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador.

Avó do romancista José de Alencar, Bárbara “gemeu longos dias”, “vítima em 1817 da tirania do governador Sampaio”, segundo o letreiro colocado acima da prisão (um pequeno buraco no chão, protegido por grades) da fortaleza. Alguns historiadores negam essa versão. A lenda, contudo, é de que ainda se pode escutar os lamentos da mulher na calada da noite.

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Calabouço onde teria ficado a avó de José de Alencar é o ponto alto de uma rápida visita ao forte

Quem verdadeiramente lastima é o historiador Aírton de Farias, porque um passado tão rico está preso naquele antigo forte holandês. “É um absurdo que a fortaleza esteja na mão de um grupo militar em pleno século XXI. Se houver um bombardeio, eles não farão nada. Sou um dos que defendem que deveríamos retomar o lugar, fazer um centro cultural. O forte de Natal virou um museu, uma coisa bacana”, comparou.

Crítico do turismo de apenas “praia, bucho e bunda” proposto por Fortaleza, como definiu, Aírton ainda lembrou que a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção se situa em uma região repleta de atrativos. Está em frente ao Mercado Central e ao lado do Passeio Público, onde foram realizados os primeiros jogos de futebol do Ceará. “Foi José Silveira, o Charles Müller cearense, quem promoveu o esporte com pessoas de melhor condição econômica”, contou.

Diferentemente das raízes holandesas, a paixão pelo futebol se popularizou e perdura até hoje na capital cearense. Está ainda mais aflorada com os jogos da Copa do Mundo, em que os turistas já elegeram as praias como o principal atrativo além do Castelão. Os mexicanos, por exemplo, promoveram uma verdadeira algazarra na orla por ocasião do empate sem gols com o Brasil.

“Os mexicanos foram muito animados. Os alemães estavam mais comedidos aqui, embora também gostem bastante de cerveja. Agora, já vemos nas ruas uma nova invasão holandesa”, sorriu Aírton de Farias, um fanático torcedor do Ceará, pronto para palpitar sobre o duelo de domingo. “A Holanda tem um time bom e tradição. Em teoria, é favorita. Mas o Castelão está se caracterizando por ser o estádio das surpresas da Copa do Mundo. De repente, o México tem uma boa oportunidade de expulsar os holandeses daqui outra vez.”

28/06/2014   Gazetaesportiva.net

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