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Formar leitores

 

Faz alguns anos que tenho ido a colégios para conversar com alunos. Estou cada vez mais convencido da eficácia que a presença de autores em colégios pode ter na formação de novos leitores, especialmente quando a visita do autor sucede a leitura e discussão de um livro seu em sala de aula

Mês passado viajei a Natal como um dos convidados do projeto Ação Leitura, realizado pela editora Jovens Escribas em parceria com o Sesc. Além de ministrar uma oficina de conto, fui escalado para visitar colégios e conversar sobre literatura com turmas de ensino médio.

Numa tarde escaldante de quinta-feira, formei uma dupla com o mineiro Sérgio Fantini para conversar com os alunos de primeiro ano da Escola Municipal Celestino Pimentel. Até aquele momento, eu tinha visitado apenas colégios particulares de Natal. As conversas vinham acontecendo em auditórios grandes e confortáveis, com alunos que tinham sido previamente preparados pelos professores.

Na Celestino Pimentel, tivemos um início trepidante. Primeiro por nossa culpa, pois chegamos atrasados. Situada num bairro pobre, a escola pública tinha instalações precárias. Os alunos foram amontoados numa sala pequena e sufocante, em cadeiras e colchonetes espalhados no chão. Havia muito ruído e a porta rangente abria o tempo todo para a entrada ou saída de alguém. Os adolescentes, é claro, estavam dispersos. Tinham algum interesse e um bom senso de disciplina, mas o calor era demasiado e eles não pareciam entender bem a razão de estarem ali. Com o tempo encurtado, eu e Fantini tentamos falar rapidamente de nossas trajetórias como leitores e escritores, enfatizando a importância dos livros. O alarme do recreio soou e ficou decidido que continuaríamos o bate-papo após o intervalo.

A equipe da escola teve uma ideia: transferir a segunda metade do bate-papo para a Sala de Vídeo, uma sala climatizada, com assentos para todos os alunos. Não sei por que não fomos colocados lá desde o começo. Talvez tivessem sido pegos de surpresa pela nossa chegada, ou talvez só usem a sala para a exibição de vídeos. Eu e Fantini estávamos tensos. Os alunos retornaram e se acomodaram para reiniciar uma conversa que não tinha começado bem. Mas agora eles estavam completamente atentos. O ar condicionado os transformou. Nós é que custamos a encontrar um tópico que realmente atiçasse o interesse deles. Até que Fantini tirou um livro da sacola e anunciou que leria alguma coisa.

Era um conto duríssimo do Wander Pirolli a respeito de uma família que tem o barraco em que moram invadido durante o almoço, e o pai acaba sendo espancado pela polícia na frente da esposa e do filho. O final é abrupto, um blecaute narrativo após a explosão de sangue e lágrimas. Me virei para os alunos e vi que estavam tão chocados quanto eu.

A atmosfera havia se transformado. Todos sentiam. Após um silêncio enorme, Fantini começou a chamar a atenção dos adolescentes para alguns aspectos do conto, sua temática e linguagem. Propus aos alunos que prestassem atenção nos detalhes que o autor propositalmente não incluiu na história. O que não estava dito? A idade do menino, arriscou um. A razão de a polícia ter vindo prender o homem, se é que ele fez alguma coisa de errado, apontou outro. Logo eles estavam falando uns por cima dos outros, absortos no jogo de encontrar as elipses e os subtextos daquela história. Não demorou para que um aluno revelasse que tinha escrito um livro. “Uma história policial de 40 páginas.” Conversamos sobre como ele poderia publicar o livro na internet. Outro guri contou que tinha conquistado o primeiro lugar em um concurso com uma fábula sobre um lápis e um apontador. Discutimos a fábula dele e comparamos o gênero com a piada e com o conto, onde a moral da história está insinuada. Na hora de ir embora, nos acompanharam pelo corredor pedindo dicas de livros, sites, nossos e-mails. Uma guria veio perguntar como poderia transformar em conto uma história traumática que tinha acontecido com ela.

Faz alguns anos que tenho ido a colégios para conversar com alunos. Estou cada vez mais convencido da eficácia que a presença de autores em colégios pode ter na formação de novos leitores, especialmente quando a visita do autor sucede a leitura e discussão de um livro seu em sala de aula. O efeito é notável. As perguntas feitas por jovens que leram um livro costumam ser originais e surpreendentes. Diante da presença desmitificada do escritor, eles questionam a linguagem, os detalhes da trama e o destino dos personagens, e não raro me forçam a ver meu próprio trabalho de uma perspectiva inesperada.

Por essas e outras, defendo que autores contemporâneos deveriam dividir espaço com clássicos nos currículos escolares e admiro professores que tomam essa iniciativa. Lembro de estar em sala de aula, certa vez, lendo o recém-lançado “Cidade de Deus” do Paulo Lins embaixo da mesa, às escondidas, enquanto a professora lecionava literatura brasileira em frente ao quadro negro. Num instante de autoconsciência, me intriguei com aquilo. Por que nunca lemos nada assim no colégio? Estávamos lendo apenas os mortos.

Daniel Galera

O colunista escreve às segundas no jornal O Globo

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