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Flávio Paiva: o bilhete do #CapitãoRapadura

FLÁVIO PAIVA 04/12/2013, no jornal O POVO

 

No início da década de 1940 os estúdios Disney realizaram um filme de aproximação dos Estados Unidos com a América do Sul. Tempo de guerra mundial e, com a animação “Alô Amigos”, a turma do rato Mickey tratou de ser simpática com povos do litoral, das pampas e dos Andes. No Brasil, eles inventaram o malandro Zé Carioca; na Argentina, fizeram um Pateta de bombacha e criaram o Tribilín; no Chile desenharam o aviãozinho Pedro, em homenagem ao presidente Pedro Aguirre; e, na fronteira do Peru com a Bolívia, o Pato Donald se divertiu com os povos do lago Titicaca.
O cartunista chileno René Ríos (Pepo) ficou inconformado com a figura de um político simbolizando seu país e criou o Condorito (1949), até hoje o mais popular personagem das histórias em quadrinhos da América hispânica. As circunstâncias dos conflitos militares pediam reforço na ocupação de territórios geográficos e identitários, e a indústria cultural produziu super-heróis com as cores da bandeira dos EUA, ainda hoje bem identificadas nos uniformes do Super-Homem (1938), de Jerry Siegel e Joe Shuster; do Capitão América (1941), de Joe Simon e Jack Kirby; e da Mulher Maravilha (1941), de William Moulton Marston.
Com a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), os Estados Unidos lançaram mão dos super-heróis das histórias em quadrinhos, como portadores do discurso da justiça, a fim de engrossar as fileiras de defesa dos seus interesses geopolíticos e econômicos. Foi uma enxurrada de personagens maravilhosos que ganharam o mundo encantando pessoas de todas as idades nas páginas das revistas e nas telas do cinema e da televisão. Influenciados pela máquina norte-americana de produzir fantasias, alguns lugares foram além e criaram os seus próprios personagens.No Ceará, o cartunista Mino criou o Capitão Rapadura (1973), o herói das inteligentes saídas ingênuas. Embora designado “capitão”, com direito a capa sobre os ombros, o Cap. Rapadura é um tipo mais próximo do Piu-Piu (1940), de Bob Clampett, com sua sabedoria da desatenção desconcertante, do que dos super-heróis da Liga da Justiça. A linhagem conceitual do indesbotável Rapadura é a mesma do Condorito (1949), do chileno Pepo, da Mafalda (1964), do argentino Quino, e da Mônica (1970), de Maurício de Souza. A diferença é que todos estes foram popularizados e até ganharam estátuas em logradouros públicos de suas cidades, com as quais as crianças podem se abraçar para tirar fotos.
Os 40 anos do Capitão Rapadura foram comemorados na tarde do sábado passado, 29/11, em um evento realizado pelo Fórum de Quadrinhos do Ceará e pelo Armazém da Cultura, com a presença iluminada e cheia de bom humor do querido Mino. Como vida de super-herói é cheia de nove horas, o Rapadura não teve como comparecer à sua própria festa porque, segundo o Mino, ele estava em uma missão secreta. Mas não deixou por menos e escreveu um bilhete que foi lido pelo seu criador para uma atenta plateia de adultos e crianças que escutou tudo em silêncio reflexivo.
Mino tirou do bolso o bilhete enviado pelo Cap. Rapadura aos fãs presentes àquela solenidade e, logo após a leitura, me deu o original, autorizando-me a compartilhá-lo com os leitores desta coluna. Diz assim a mensagem do nosso super-herói: “Existe uma diferença entre heróis e super-heróis. Os heróis são os soldados que defendem a pátria, os policiais e os bombeiros que protegem a sociedade. Mas os super-heróis são os garis, os enfermeiros, os professores, os cozinheiros, os faxineiros, as pessoas mais humildes que cuidam de nós.
São aquelas que curam, que velam, que alegram e também rezam, procurando fazer aquilo que é melhor em prol de si e dos outros…”.
Era possível ouvir a respiração do público, enquanto o Mino seguia enlevado na voz do Capitão Rapadura: “Para sermos super-heróis assim, de verdade, devemos reconhecer que somos seres misturados. Somos filhotes de minhocas, mas também somos filhos das estrelas. Somos seres capazes de tudo. De sermos criaturas boas, de sermos também más criaturas; capazes de edificar grandes obras, mas capazes por outro lado de destruirmos as coisas boas que construímos. Para ser um super-herói (se é que alguém quer ser) tem que se conhecer, viajar rumo ao desconhecido do seu íntimo, para conhecer os anjos que nos habitam. Isso é se conhecer. E em seguida nos aceitar após conhecer nossas fraquezas. Decidir depois, também, qual dessas forças alimentar. E, finalmente, fugir humildemente das kriptonitas que nos enfraquecem, e, com a ajuda do espinafre ou da rapadura, nos tornarmosfortes para nos superarmos…”.
E finalizou: “Sim, a palavra mágica não é Shazam!, é Superação! Superar é que é ser Super. E é esse tipo de herói, de super-herói, que todos nós podemos ser, bastando para isso querer. Primeiro, se autoconhecendo. Segundo, se aceitando como é. Terceiro, superando-se. Foi o que disse um super-herói cristão chamado Santo Agostinho. Um, super abraço em todos vocês, do Capitão Rapadura, um herói que tudo atura, lembrando que a vida começa aos 40; e que a vida, na verdade, começa sempre agora”. Obrigado, capitão, obrigado, Mino, e parabéns!!!

 

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