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Finlândia na favela

O entorno do Ciep 1º de Maio, escola municipal na zona oeste do Rio, em nada lembra paisagens europeias. No entanto, mesmo no meio de duas violentas favelas no distante bairro de Santa Cruz, seus alunos vêm obtendo em avaliações externas resultados similares à média de nações ricas. Pode ser difícil crer que uma escola pública no Brasil tenha indicadores assim com alunos de favelas.

Mas faz sentido ao visitar o local. “Tudo aqui tem uma má intenção: ensinar”, brinca a diretora Sueli Gaspar. Em todas as salas de aula, as paredes estão repletas de cartazes com lições, regras e textos de motivação. Nas turmas de alfabetização, cada aluno tem na mesa um adesivo com seu nome em letra de forma e cursiva. Livros ficam soltos pelas salas e mesas nos corredores. “Não nos importamos que o aluno leve pra casa, amasse e rabisque. A gente quer é que ele leia. Se perder, compramos outro.” Nas salas, a cena mais comum é a  maioria dos alunos levantarem os dedos para responder às perguntas. Com exceção de goteiras no último andar -pragas em Cieps-, a escola é impecavelmente limpa. Há jardins com girassóis de plástico -originais foram vetados por causa de infiltração.

“As crianças têm que sentir que estão num ambiente bonito e alegre. A escola precisa ser diferente para compensar o que eles vivenciam nas comunidades”, diz a diretora, se referindo às favelas do Rola e de Antares. O trabalho de autoestima é claro. “O que vocês são?”, pergunta uma professora. “Bonitos, educados e inteligentes”, respondem. “Por que são felizes?”, retruca. “Porque aqui aprendemos.” A resposta mais comum dos professores sobre o diferencial ali é que todos trabalham com paixão. Mas motivação não explica tudo. O projeto pedagógico no Ciep 1º de Maio é cumprido à risca. Uma cópia fica acessível a todos na biblioteca, com registro de tudo o que já foi  feito no ano. Professores registram toda semana cada atividade realizada em sala. Rafaela Viana, 28, professora que veio de uma escola particular, afirma que se surpreendeu com a disciplina: “Dizemos que tem que moralizar antes de intelectualizar. Os dois primeiros meses são os mais importantes. Mas funciona. É escola pública, mas não é bagunça.” “Aqui é igual à Beija-Flor”, diz a diretora, em referência à escola de samba conhecida por desfiles técnicos, conseguidos com rigor e seriedade.

Na semana passada, a prefeitura divulgou que o Ciep 1º de Maio é a melhor escola municipal do Rio, com nota 8,1. No Ideb, avaliação federal, a nota em 2009 foi 5,9. O MEC estipulou a nota 6 como meta nacional para 2022, média considerada de país desenvolvido. A escola está, portanto, a 0,1 ponto deste objetivo. Na avaliação municipal, superou o patamar da Finlândia (7,5). Sueli acha que pode melhorar. Convém não duvidar.

Fonte: Folha de S.Paulo

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