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Entrevista com Ana Miranda “Dom Quixote Sertanejo”

A escritora Ana Miranda fala sobre a novelaOpeso da luz, que discute as relações entre a ciência e a imaginação ao narrar as aventuras e as desventuras de um cientista amador cearense.

Qual o seu int eresse por Einstein e como você estabeleceu essa conexão de Einstein com o Ceará?
Um dia, numa cidade no interior do Ceará, estive na casa de um padre muito culto, que tinha em sua sala de estar grandes retratos de quatro homens fundamentais na história humana: Cristo , Freud, Marx e Einstein. “ T odos judeus!” , ele disse. Einstein não estaria na minha lista, que é muito tendenciosa. Eu elegeria Homero, Shakespeare, Cervantes,
T s’ai Lun (inventor do papel), e Gutenberg, que desenvolveu a tipografia e a prensa de impressão. Um mundo só de literatura, livros. Mas Einstein está realmente entre os homens mais influentes da humanidade. Para mim, ele é um mistério poético, ligado a eclipses, luzes, tempo , estrelas e equações enigmáticas.
E um ser humano da maior simpatia, uma imagem irreverente, uma cabeça capaz de teorias que provocaram uma revolução pelo pensamento, com o paradoxo da paz e da guerra.

Qual é o mistério de Einstein?
A pureza de seu pensamento abstrato me encanta, o enigma de seus textos repletos de equações me inquieta. Mas ele estava fora de minhas cogitações, até que fui a Sobral e visitei o museu que guarda a memória da passagem dos cientistas ingleses que ali estiveram, em 1919, para a observação do eclipse que resultaria na comprovação da teoria da relatividade geral, e Einstein passou a fazer parte de meu mundo. Ele tinha uma conexão com minha terra natal, e até mesmo havia quem dissesse que ele passou pelo no Ceará. Não esteve fisicamente, mas esteve em espírito, decerto esperava ansioso as fotos das estrelas, imaginando aldeias cearenses, transportado . E essa presença etérea tinha um significado literário em amplo espectro, como, por exemplo, a questão do sentimento de exílio, que tanto me toca, ligado à questão da imaginação .

A epígrafe do livr o é uma citação de Einstein: “ A imaginação é mais importante do que o conhecimento”. Vivemos um momento da história em que a imaginação ou o conhecimento estão no poder? Por que a imaginação é mais importante do que o conhecimento?
A imaginação e o conhecimento são poderosos, se juntos. São um caminho para se adquirir um poder pessoal, de conhecer a si mesmo e compreender o outro, o mundo. Um caminho de libertação. Mas, a humanidade usa muitas vezes o conhecimento e a imaginação para
sua aventura de ambição e vaidade, o que não passa de uma forma destrutiva de egoísmo e ignorância. A imaginação comumente é dispersada em sonhos de possuir isso e aquilo, participar de um mundo artificial de felicidades. Quem escapa a isso torna-se sábio. Para ser um sábio, não basta o conhecimento, que é limitado a uma capacidade mental. A imaginação é que vai movimentar os elementos do conhecimento e lhes dar um significado. Por isso, a ficção existe. Einstein era criticado por sua irreverência, transgressão, e como era muito lúcido, percebeu que era a sua mente imaginativa que lhe permitia ver o que outros não viam, e ir além. Concluindo essa frase, ele dizia, afinal, que o conhecimento é limitado , e a imaginação é capaz de abarcar o mundo. O que significa, talvez, que a ciência não basta, a arte é que dá uma dimensão transcendente à humanidade. Enstein era, ao
mesmo tempo , cientista e visionário .

Você parece ter muita simpatia pelos visionários. De onde surgiu Roselano,
o Einstein do sertão, que protagoniza a novela, e parece também um Dom
Quixote sertanejo da ciência?
Sim, muita simpatia, são os inventores, utopistas, poetas, artistas, profetas… Se um louco aparecer numa sala cheia de gente, ele vem direto falar comigo, já aconteceu assim. O Roselano é um pouco louco, um pouco poeta, um pouco visionário. Um sonhador, um
Quixote que vê o mundo não pelos livros de cavalaria, mas pelas páginas de ciências e pela leitura misteriosa do céu. Ele surgiu dessa minha simpatia, e é inspirado num tio-avô, tio de minha mãe, Inácio Nóbrega, nascido em Cajazeiras da Paraíba, inventor, que criou nos anos 1930 um controle remoto. E outras invenções. Ele vivia fechado no quarto, preparando seus experimentos, que depois construía e testava. Ele ficou muito abalado porque um alemão levou seu controle remoto para patentear e nunca mais voltou. Roubou
seu inv ento. Isso era muito comum. Encontrei o caso do padre Francisco João Azevedo, também paraibano, que inventou uma máquina de escrever com o mesmo sistema do piano, de teclado, e seu invento foi roubado. O Roselano inventou um moto-perpétuo estelar , uma máquina quimérica que reproduz o movimento do universo. Assim como esses inventores, deve haver muitos outros no interior nordestino, nos sertões. O sertanejo precisa ainda mais da imaginação para sobreviver.

O que representou a sua mudança para o Ceará do ponto de vista da criação literária? Você morou muito tempo longe da terra em que nasceu, mas se r econhece na condição de cearense? É um outro Brasil que você vê a partir do Ceará?
Quando mudamos do Ceará para o Rio, mamãe levou um quadro de uma praia, com jangada, rendeira, coqueiro, casa de taipa… Eu achava que tinha nascido ali, aquilo era o Ceará. Houve uma intenção literária na minha mudança, de busca das origens desconhecidas. Eu sentia esse buraco negro no quebra-cabeça de minha imaginação literária. Eu também estava cansada de cidade grande, queria morar perto da natureza, do
mar, numa aldeia, para respirar novos conhecimentos e imaginações. Minha mudança para o Ceará foi um reencontro, voltar à infância, entrar no quadro, mas me trouxe outros elementos e temas cearenses e está impregnando minha literatura. O peso da luz é meu primeiro livro de tema cearense, e logo vai sair outro, Semíramis, sobre José de Alencar. Veja que são temas locais, mas com maior amplidão geográfica nos interesses.

E o que isso tem a ver com Brasília, onde você morou durante muito tempo?
Do ponto de vista ideológico , mudar para o Ceará era cumprir uma educação bem brasiliense, de Darcy Ribeiro, de fazer as conexões com o Brasil, me reportar ao país profundo. Não sei se agora sou mais cearense do que era antes. A estrutura mental e emocional é a mesma, e foi construída na minha primeira infância, no colo de minha babá cearense, uma infância passada diante da praia de Iracema, onde nasci. Ali, já basta para
ser cearense, e parece preludiar alguma coisa. Sempre fui cearense na alma, uma certa meiguice, um deixa pra lá, uma irreverência, vontade de sorrir , uma queda para o nomadismo… Absorvi culturas diferentes, que não apagaram essas características. Sou brasileira. O Ceará é o Brasil, tem seus problemas, suas características gerais, mas é muito particular . O Brasil continua o mesmo, o que mudou em minha visão foi mesmo o Ceará, que não é mais apenas um sonho poético.
Brasília tem alma nordestina?
Não. Brasília tem o suor e sangue de nordestinos em suas fundações e muitos habitantes nasceram no Nordeste ou são filhos, netos de nordestinos. Mas a alma de Brasília — e isso é uma de suas mais belas qualidades — é brasileira.

Na novela, há uma tentativa de enlace entre a poesia e a ciência. O que une ou poderia os dois saberes? No momento, a ciência não se tornou soberana e não esmaga a poesia?
Eu só poderia abordar a ciência buscando seu lado poético. A poesia era imprescindível no livro. Uma pessoa me disse que, com a minha armada de Brancaleone, meu Dom Quixote sertanejo, uni três elementos que constituem um ser humano: a razão, o espírito e a animalidade. A razão é o Roselano, apaixonado pela ciência, que busca equacionar. O poeta Xerxes, o X da questão, é o espírito . E o papagaio Galileu é a animalidade. Achei a teoria interessante. Mas foi tudo intuitivo. Até mesmo o papagaio Galileu. Quando criei o papagaio, ainda não sabia que o Einstein tinha dois papagaios em sua vida, um que teria ganho de um popular no Brasil, e outro que lhe mandaram, nos Estados Unidos, quando ele
estava perto de morrer, claro que com uma intenção terapêutica. Einstein é feito de conhecimento e imaginação, e chegou a escrever poemas. O livro deveria ter os mesmos elementos, conhecimento + imaginação = ciência + poesia. O que une a poesia e a ciência é
o fato de que em tudo existe poesia, existe o toque de espírito , o algo elevado, que uns chamam de divino. A pobre da ciência, a pobre da poesia, andam esmagadas no mundo atual, obcecado pela tecnologia. Mas em tudo há ciência, em tudo há poesia. Só não vê quem não quer.

Você é uma ficcionista que trabalha muito com a matéria histórica. Que contribuição a imaginação ficcional pode dar ao conhecimento da história?
Sim, uso a matéria do passado, mas muito mais pelas fontes linguísticas do que pelos elementos culturais ou históricos. É o passado da literatura, a experiência de meus antecessores. Na verdade, todo romancista usa o passado, todos andam em busca de um
tempo perdido. Mas, uso um passado que não é apenas meu, pertence ao meu povo, ao meu país. Pertence à nossa história literária. Os romances que escrevo ser vem como um trem, um navio, que vai levar o leitor a uma viagem pelo passado literário. Não sei
se ajuda ao conhecimento da História, que é outra arte. Ou ciência humana. Outro modo de ver o passado. Sei que os professores usam muito os meus livros para os alunos compreenderem o contexto das escolas literá rias, Barroco, Romantismo… Mas não
vejo uma distância assim tão grande entre história e ficção. Costumo dizer que os romancistas são historiadores que fingem estar mentindo; e os historiadores são ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, sábado, 14 de dezembro de 2013

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