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Design de fontes entra na era digital

A arte de criar fontes mudou radicalmente com a chegada da tecnologia digital. Uma agitada rede de designers está modificando a maneira como pensamos e lidamos com as fontes em nosso dia a dia.

Times New Roman, Arial ou Century Gothic são fontes que usamos diariamente no computador ou que vemos em revistas, livros ou placas de rua. Por trás dessas fontes, há uma movimentada rede de geeks que estão literalmente moldando a forma como pensamos e percebemos as letras.

Hoje, elementos gráficos têm muito mais responsabilidade do que tinham há 20 anos. Deles são esperados bons resultados e boas vendas, já que, com a revolução da internet, passaram da mídia impressa para a digital e hoje são usados em novas mídias, como mensagens de texto.E, com o aumento da demanda por imagens gráficas, surgiu a grande fascinação pelas letras.

“Os jovens de hoje conviveram com telas de computador sua vida toda. Então, para eles, muitas vezes é uma surpresa saber que podemos escrever maravilhosamente à mão”, diz Jan Middendorp, designer gráfico, editor e especialista em fontes. “Com as pessoas redescobrindo essa habilidade, talvez elas também descubram as fontes.”

Muito além do A a Z

Com seus estúdios baratos e cafés onde se pode simplesmente sentar e passar a tarde trabalhando sem ser incomodado, Berlim é um paraíso para a classe criativa. Não é surpresa, portanto, que a capital alemã esteja repleta de designers de tipos e tipógrafos.

Designers de tipos são aqueles que criam as fontes, enquanto tipógrafos trabalham com fontes já criadas, aplicando-as em seus projetos gráficos. E você sabia que existem mais de 26 caracteres no alfabeto latino? Mas pergunte a qualquer designer de tipos e ele vai contar que sua fonte tipográfica tem entre 250 e mil grifos ou caracteres. Não se trata apenas do A ao Z. Cada fonte inclui também pontuação e acentos – basicamente todos os símbolos que podem ser incluídos em uma frase.

A era digital mudou nossa relação com as letras

 

Letras em Berlim

“É muito satisfatório para um designer gráfico ver seu trabalho no mundo real, e essa é realmente uma grande diferença com relação aos livros”, diz Fritz Grögel, cofundador do estúdio LetterinBerlin, criado no fim do ano passado e onde são desenhadas letras para livros, capas de discos, embalagens e logotipos – empregando tanto desenho a mão como métodos digitais.

Junto com sua sócia e designer de tipos Elena Albertoni, Grögel desenvolve fontes empresariais e decorativas, assim como identidade visual para empresas e marcas – o que muitas vezes significa trabalhar com conteúdo arquitetônico.

“Você está em constante diálogo com uma pessoa real, com um conceito real do que ela quer fazer em sua loja e que naturalmente também deve ter sua própria personalidade”, disse Grögel.

O LetterinBerlin é especializado no desenho de letras, o que significa fazer com que letras fiquem bem quando usadas em uma placa, por exemplo, mas não necessariamente em alfabetos.

“Em uma fonte, todas as letras têm que funcionar igualmente bem entre si, porque elas serão sempre recombinadas e não há como controlar”, diz Grögel. “É isso que faz o design de fontes diferente de todos os outros trabalhos relacionados a letras. Ele precisa ser extremamente sistemático, e as coisas precisam fazer referência umas às outras o tempo todo”.

Fonte de grife

Hoje, de acordo com a opinião de especialistas, o design de fontes é uma tendência no meio gráfico. Nos últimos dez anos, o número de cursos na área aumentou, commestrados reconhecidos nas universidades de Reading, no Reino Unido, e Haia, na Holanda.

Fritz Grögel também atribui essa popularidade à Font Shop, loja virtual de fontes com base em Berlim. Ela foi uma das primeiras distribuidoras de fontes especiais na internet a promover também os criadores por trás das fontes.

“Na década de 1980, ninguém sabia o nome dos designers de tipos. Hoje, quando Fritz Meyers desenha uma nova fonte, todo mundo quer dar uma olhada. É como um designer de moda”, explica Grögel. “O designer de tipos virou uma pessoa pública dentro do meio, o que remete aos desenhistas de tipos da década de 1920″.

Outros alfabetos também influenciam o design de fontes

 

Alfabeto de butique

Escondida no tranquilo bairro berlinense de Prenzlauer Berg está a Mota Italics, um misto de estúdio, livraria e galeria. As paredes são cobertas por 120 fotos no formato Polaroid que mostram fontes encontradas por entusiastas e enviadas aos donos do local, Rob e Sonja Keller. Além de usar o prédio como estúdio de design, a Mota Italics é também um espaço de exposição.

A empresa é especializada em fontes exclusivas e personalizadas que estão disponíveis para o licenciamento por profissionais de design gráfico, a maior parte deles dos Estados Unidos e da Alemanha. As fontes estão disponíveis apenas na loja virtual.

Rob admite que ele e Sonja não querem que suas fontes estejam disponíveis em lojas comerciais de fontes como a MyFonts. “Pessoalmente não quero ser apenas mais uma fonte entre as 100 mil que esses sites oferecem. Gosto desse aspecto de butique com o qual distribuímos nossas fontes”, explica. “Fazemos fontes com seriedade.”

Sonja completa que fontes “não tão sérias” tendem a ser corpulentas e não necessariamente legíveis. “Elas são apenas para um texto curto, uma palavra, uma frase ou um logotipo”, acrescenta. “Nossas fontes são mais para texto, que tem necessidades totalmente diferentes, porque você tem que ser capaz de lê-las continuamente, sem ficar com dor de cabeça depois de duas linhas.”

Tendências da temporada

Quanto às tendências em fontes, Rob e Sonja Keller citam a crescente presença de letras nos alfabetos cirílico, grego e árabe, por exemplo, para projetos customizados nos quais os clientes exigem letras fora dos caracteres do alfabeto latino.

Berlim está repleta de designers e tipógrafos

 

“Acredito que existam muitas tendências na sociedade em geral refletidas em fontes. A globalização, por exemplo,é refletida em grupos de caracteres”, explica Sonja.

Provavelmente, a grande evolução na indústria do design de fontes e tipografia é a mudança do impresso para o digital, que obriga os designers a trabalharem com telas otimizadas de alta resolução e a usarem um método chamado de hinting. O método consiste num conjunto de instruções colocados em uma fonte, essencialmente dizendo como ela deve se comportar na tela. Nem todas as fontes podem ser transferidas perfeitamente do papel para o computador.

A era digital também modificou o modo como as fontes são distribuídas, com empresas como a MyFonts, uma plataforma de distribuição online que permite que qualquer designer disponibilize suas fontes para licenciamento. Décadas atrás, nos primeiros anos da internet, designers tinham que consultar enormes catálogos ou fazer o download de uma pequena quantidade de amostras. Hoje, todas as fontes são licenciadas e distribuídas na internet, seja da butique pessoal de um designer ou de gigantes da indústria gráfica como o MyFonts.

Canais de distribuição, tal como o MyFonts, abriram o mercado até para leigos, que agora podem comprar fontes na internet. Designers são beneficiados por terem uma plataforma onde seu trabalho, que poderia ter passado despercebido na rede, pode ser encontrado e licenciado.

Autor: Melanie Sevcenko (mas)
Revisão: Francis França/ Luisa Frey

Fonte: DW (Deutsche Welle)

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