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Dama das letras: Raquel de Queiroz

16.11.2010

Até agora pouco lembrados, diante da importância da escritora, os cem anos de nascimento de Rachel de Queiroz se completam na próxima quarta-feira, dia 17, com lançamentos que podem ser considerados o ponto alto do centenário. “Mandacaru” (Instituto Moreira Salles), e “Serenata” (Armazém da Cultura), respectivamente organizados pela pesquisadora Elvia Bezerra e pela escritora Ana Miranda, reúnem poemas inéditos escritos na adolescência pela autora de “O Quinze”, descobertos recentemente em diferentes partes de seu acervo. Eles registram etapas distintas da formação da romancista, que mais tarde reagiria com ironia ao ser chamada de poeta: o primeiro é um conjunto de dez poemas carregados na cor local e na exaltação de figuras nordestinas, que Rachel tentou sem sucesso editar em livro; o segundo, mais lírico, reúne mais de 40 poemas, muitos publicados pela jovem escritora em jornais do Ceará sob o pseudônimo Rita de Queluz.

O lançamento de “Mandacaru” no Instituto Moreira Salles, onde está o acervo com mais de 5 mil itens no qual foi encontrado o livro, marca também a abertura de uma exposição com vários documentos inéditos sobre a vida e obra de Rachel de Queiroz, entre eles fotos, caricaturas e manuscritos. O evento começa às 16h com a exibição do filme “Cangaceiro”, de Lima Barreto, cujos diálogos foram escritos por Rachel, e termina com uma leitura da peça “A beata Maria do Egito” com direção de Aderbal Freire-Filho, a partir das 20h. Estudiosa da obra de Rachel de Queiroz, a crítica Heloisa Buarque de Hollanda fará às 19h uma conferência sobre a autora, que descreve como uma “modernista atípica de enorme importância”.

Uma moça descobrindo o mundo

Rachel tinha explicitamente como modelo Mario de Andrade e os modernistas paulistas e se empenhou no trabalho de linguagem de seus romances nestes termos. A obssessão com a economia e com a exatidão em sua escrita é notável — avalia.

O interesse pelo modernismo é claro em “Mandacaru”, diz Elvia Bezerra, citando o texto de apresentação em que Rachel, então com 17 anos, se dirige aos “Novos do Sul” tomando parte em suas “lutas” para despir “o Brasil da velha e surrada casaca europeia” e vesti-lo com “uma roupa mais nossa, feita de algodão e terra”.

— É um livro com que ela pretendia participar do movimento modernista — diz. — Os poemas já têm uma linguagem simples, mas ainda muita eloquência, um arrebatamento que nada tem ver com “O Quinze”. Entre os dois livros não há evolução, apenas, mas um salto.

Elvia lembra que em sua crítica de “O Quinze” Mario de Andrade chama o livro de obra-prima, mas fala mal da “versalhada” de autor não identificado que servia de epígrafe (suprimida em edições posteriores da obra):

— Agora pudemos confirmar que esses versos, como Mario desconfiou, eram de Rachel. Estão em “Mandacaru”.

Os textos reunidos em “Serenata” foram encontrados em outro arquivo de Rachel, guardado pelo bibliófilo José Augusto Bezerra no Ceará. São várias páginas datilografadas e numeradas, com referência ao local de publicação original, possivelmente organizadas por Alba Frota, amiga de Rachel que se encarregou da preservação de boa parte dos documentos da romancista. Do conjunto, a escritora Ana Miranda decidiu publicar os “de tom mais sentimental”, explica, deixando de lado os ligados a “questões de brasilidade”. Os poemas mostram uma autora ainda explorando o próprio talento, afirma:

— São lindas as poesias. Ela era muito jovem e realmente não se pode dizer que sejam poesias maduras, mas são obra de uma moça que está descobrindo o mundo e iniciando a sua expressão — diz. — Ela fala de temas como o violão, a serenata, a casa onde ela morava, cantigas de natal, uma costureira que vê passar na rua. São temas mais líricos, mas não de maneira intensa. A Rachel sempre foi a mesma, com uma voz crítica, irônica, de observação não sentimental do mundo.

Também nesta semana sai pela José Olympio uma nova edição de “Tantos anos”, o volume de memórias que Rachel “ditou” em longas conversas com a irmã Maria Luiza, responsável por dar forma ao livro, publicado originalmente em 1998. Maria Luiza diz que eram muito divertidas as sessões de recordação, que se dividiam entre o Rio de Janeiro e a fazenda de Rachel em Quixadá:

— Foi o Ziraldo, depois de uma conversa, que disse à Rachel para escrever suas memórias. Eu fiquei com aquilo na cabeça e passei uns cinco anos insistindo para que ela escrevesse. Ela dizia: “Não faço, memória é a coisa mais mentirosa do mundo, ninguém diz a verdade”. Até que chegamos ao acordo de fazer o livro a partir de nossas conversas.

Na edição final, conta, algumas das melhores passagens ficaram de fora:

— Tinha muita coisa que não dava para botar no livro. A gente falava mal de muita gente: conhecidos, parentes. Ela falava mal e eu também falava mal. Era muita indiscrição.

Uma outra exposição sobre a escritora está aberta desde 31 de agosto na Academia Brasileira de Letras — Rachel foi a primeira mulher a entrar na ABL, em 1977. O poeta Alexei Bueno organizou a mostra, composta por seis módulos que contam a vida da escritora.

— Rachel de Queiroz foi uma romancista nata — diz. — Tinha uma vocação para a narrativa aliada a um domínio estilístico muito precoce .

Para Heloisa Buarque de Hollanda, hoje há um retorno ao estudo da obra de Rachel.

— Ela foi muito marginalizada por suas relações com o general Castelo Branco e sua ojeriza ao Jango. Mas de uns tempos para cá, venho observando um significativo retorno à Rachel, especialmente através dos estudos e teses de mulheres.

Fonte: Diário do Pará

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