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Consultores indicam principais derrapadas de jornalistas na língua portuguesa

“Não há página mal escrita que resista à leitura em voz alta.” O conselho vem do escritor Gustave Flaubert, autor do mundialmente conhecido “Madame Bovary”. Apesar de a recomendação ter mais de cem anos, a dica permanece atual, sobretudo para os jornalistas, que têm na língua seu principal instrumento de trabalho. “Com a internet, a crítica é imediata. O leitor não só percebe o erro, mas o aponta. O público tem se tornado mais qualificado, exigente”, defende o consultor de língua portuguesa Sérgio Nogueira.

Para o especialista, os principais erros cometidos pelos profissionais de comunicação são os mais primários, como problemas de redundância e concordância entre o verbo e o sujeito, sem falar do uso de clichês, que, embora sejam “apenas” vícios de linguagem, empobrecem os textos noticiosos. “O chamado lugar-comum me incomoda muito. Termos como o ‘sonho da casa própria’, ‘do hexacampeonato’ e ‘do primeiro emprego’ são repetidos à exaustão.”

Na opinião do escritor e jornalista Fernando Jorge, a solução para evitar erros é tão antiga quanto a própria língua portuguesa. “O jornalista deve falar de maneira simples, sem pedantismo, e isso não tem nada a ver com falar errado para criar identificação com o público. Quem faz a língua realmente é o povo, mas os profissionais de comunicação precisam dar o exemplo.”

Mais do que servir como modelo para a população, utilizar de forma correta a língua portuguesa garante uma das mais prezadas qualidades de um bom jornalista: sua credibilidade. “Perde-se toda a confiança com os erros. Como acreditar na denúncia de um jornalista que não sabe nem escrever ou falar?”, questiona Jorge.

A pedido de IMPRENSA, os especialistas selecionaram exemplos de títulos, chamadas de capa e falas de profissionais de veículos impressos, TV, rádio e online. A ideia é identificar os principais erros e vícios de linguagem cometidos para que eles sirvam de alerta: será que precisamos voltar para a escola?

Concordância verbal
“Aconteceu dois acidentes na Marginal Pinheiros”

“Falta 10 minutos para acabar o jogo”

É comum que alguns jornalistas comecem frases com o verbo no singular e no meio usem o sujeito no plural. Está errado. O correto é sempre concordar o verbo com o sujeito.

Haver x plural

“Não houveram sobreviventes no acidente”

“Haviam cinco pessoas no ponto do ônibus naquela noite”

O verbo haver, quando sinônimo de existir, deve ser sempre conjugado na terceira pessoa do singular. Ou seja: “Não houve sobreviventes” ou “havia cinco pessoas”.

Uso do verbo irregular como se fosse regular

“Os policiais não deteram os criminosos”

“Serão chamados os que ainda não deporam”

“O juiz não interviu no caso”

Os verbos derivados como “deter”, “depor” e “intervir” vão sempre seguir a conjugação do verbo primitivo, no caso, “ter, “pôr” e “vir”. Se o passado do verbo “ter” é “tiveram”, o passado do verbo derivado “deter” vai ser “detiveram”. E assim por diante.

Confusão entre os verbos “ser” e “estar”

“Quanto mais tempo (o apresentador) tiver no ar, claro, maior o risco de o público escutar isso”

Nesse caso o verbo correto é o “estar”, não o “ter”.

Feminino e masculino

“Suas milhões de fãs apaixonadas estiveram no aeroporto”

A palavra “milhão” é um termo masculino. Mesmo que o sujeito seja “Fãs apaixonadas” o correto é dizer “seus milhões de fãs apaixonadas…”.

Numerais

“Em São Joaquim está fazendo zero graus”

“Produto X tem zero calorias”

“O automóvel tem entrada de zero reais”

O numeral zero vai pedir os verbos sempre no singular. A partir do número dois flexiona-se o verbo, usando o plural.

Vícios de linguagem

“Finalmente a família de Raquel conseguiu realizar o sonho da casa própria”

“Mais uma vez o time pernambucano enfrentará o fantasma do rebaixamento”

“Há cinco anos José Augusto da Silva sofre com o fantasma do desemprego”

Metáforas

“Estádio X se tornou um verdadeiro caldeirão”

“As eleições de Minas estão literalmente pegando fogo”

“Nosso técnico está literalmente sem saco”

Se o estádio tivesse virado um “verdadeiro caldeirão”, morreria todo mundo queimado. O mesmo vale para as eleições. Os termos “verdadeiro” ou “literalmente” dão a ideia de “ao pé da letra”, por isso não devem ser combinados com figuras de linguagem, que dão sentido figurado às frases.

Redundâncias

“É preciso encarar de frente os fatos”

“Em uma matéria de TV o repórter preveniu o cidadão de que “a dengue poderia causar hemorragia de sangue”

“Pretendiam dividir o dinheiro do roubo em três metades iguais”

Ambiguidades

“Bombeiro ajuda grávida a dar à luz por telefone”

Desta forma cabe a interpretação de que a grávida deu à luz por telefone. Nesse caso, “o bombeiro ajudou por telefone a grávida a dar à luz”.

“Lojas só vendem roupas para homens de segunda mão”

As roupas são de segunda mão, não os homens.

“Igreja admite estupro de freiras por padres”

Esta construção dá a ideia de que a Igreja liberou esse tipo de conduta. O melhor seria utilizar o verbo “reconhecer”.

Fonte Portal Imprensa

por Danúbia Paraizo

03/06/2013

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