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A vencedora do Andersen é totalmente analógica

23/03/2012 – Por Julieta Lionetti

María Teresa Andruetto é a primeira autora argentina a ganhar o prestigiado Hans Christian Andersen Award, o “Nobel” da literatura infantil. Ela vive afastada nas lindas “sierras” de Córdoba (900 km a noroeste de Buenos Aires). Não tem celular, ama sua família, seus gatos e cachorros, e não entendeu bem quando eu sugeri uma conferência via Skype para entrevistá-la para a Publishing Perspectives. Ela também é uma premiada escritora de romances, poesia e peças de teatro. “Não vejo muitas diferenças em escrever para criança e
para adultos. Nem encontro qualquer obstáculo em mudar de gênero”, diz. Ao ser questionada sobre novas tecnologias e as oportunidades que elas abrem para os livros infantis, Andruetto diminui sua importância como ferramentas
criativas.

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Escritora argentina ‘desobedece’ aos padrões de literatura infantil

De Denise Mota  (Montevideo) para a Folha de São Paulo

A vida é bela, mas nela existem tristeza e injustiça. Com crianças pobres,
que trabalham desde cedo, mas também com rimas que fazem rir e palavras que
transportam o pensamento para um mundo encantado e sem fronteiras. Assim é o
universo de María Teresa Andruetto, escritora argentina de 58 anos que venceu o
prêmio Hans Christian Andersen –conhecido como o “Nobel da literatura
infanto-juvenil”–nesta semana.

Andruetto é autora de obras que não se distinguem pelas faixas etárias dos
leitores a que em tese se destinam. Suas narrativas, poemas, anedotas cruzam
incessante e naturalmente o limiar entre o que é próprio do chamado “universo
infantil”, ou adolescente, ou adulto.

Tanto pelo conteúdo como pela forma, a cordobesa é considerada uma autora
“inclassificável” pelo fato de introduzir em suas criações tidas como
“infanto-juvenis” histórias que não se encontram comumente nesse tipo de
prateleira. E de apresentá-las muitas vezes sob a forma de “livros-álbum”, em
que as ilustrações são parte inseparável da narrativa e onde as palavras parecem
ganhar vida própria e organizar-se caprichosamente. São por isso livros que
também transcendem os limites do literário e que com freqüência adentram no
território das artes plásticas.

No juvenil “El País de Juan” (2003), por exemplo, conta: “Villa Cartón (algo
como “favela Papelão”) está onde está desde que o mundo é mundo (). Na Villa
Cartón vão parar os que chegam do norte para procurar trabalho na cidade. E a
esse lugar chegaram Juan e seus pais. E viraram catadores, como todos os que
vivem na Villa, porque lá até as crianças mais pequenas separam os papelões que
prestam dos rasgados, os molhados dos secos. E os vendem”.

Recomendada para crianças a partir de seis anos, outro título de Andruetto é
“La Durmiente” (2008) –A adormecida, uma alusão direta à Bela Adormecida–,
cuja história pode ser resumida pela epígrafe que traz, do escritor José Antonio
Martín: “Era uma vez uma princesa que despertou não pelo beijo de um sapo, mas
sim por uma revolução”.

É que, em vez dos finais felizes, a pena da argentina prefere dar voz à
esperança. No lugar do conto de fadas, fábulas que falam de um cotidiano
permeado de matizes –entre eles, os cinzas– sem por isso deixar de celebrar a
beleza, o encanto e a maravilha de descobrir uma nova possibilidade de estar no
mundo a cada dia.

O júri do Hans Christian Andersen destacou essas características essenciais
da autora –que tem duas filhas e há três décadas se dedica ao ofício literário
e à formação docente em seu país– ao comentar “sua maestria na escrita de obras
importantes e originais que estão fortemente centradas na estética. Seus livros
se referem a uma grande variedade de temas, como a migração, os mundos
interiores, a injustiça, o amor, a pobreza, a violência ou assuntos políticos”.

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