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A riqueza da letra

Guineense Manuel Casqueiro lança, amanhã, no Armazém da Cultura, “Muzungu Pululu”, reunião de histórias (vividas e ouvidas) da África

As consequências dos devastadores processos neocolonialistas na África, o trágico histórico de intermináveis guerras civis no continente não poucas vezes turvaram a visão que se podia ter sobre aquele amplo território. O lugar comum era que se tratava de um campo de batalha, de uma terra devastada, na disputa pelas riquezas naturais de seus países.

Não é que o quadro seja falso. O problema é esta caricatura de visão crítica ignora que a resistência africana não se dá apenas no embate físico, tampouco que suas riquezas se resumem a terras férteis e metais preciosos. Não é que o quadro efetivamente seja falso. O problema é esta caricatura de visão crítica ignora que a resistência africana não se dá apenas no embate físico, tampouco que suas riquezas se resumem a terras férteis e metais preciosos. Refutação contundente desta maneira simplista de ver as coisas é o movimento, cada vez mais expressivo, da literatura dos países africanos de língua portuguesa – apara ficar apenas naqueles que têm marcado presença, com constância, no Brasil.

O escritor guineense Manuel Casqueiro lança seu livro “Muzungu Pululu – Homem branco transparente” neste contexto, em que autores como Mia Couto e Gonçalo M. Tavares abriram espaço para a boa recepção dos escritores da África negra, e quando a própria negritude colhe frutos de suas lutas, constando em livros de história e nos currículos escolares.

 E quem for apostar nesse caminho não se arrependerá. O livro sai nacionalmente pela Armazém da Cultura, que lança a obra em seu espaço cultural, com a presença do autor, amanhã, às 19 horas.

História é memória

 É difícil precisar a dimensão dos textos de “Muzungu Pululu”, se são memórias, histórias ou História. O escritor, na apresentação da obra, reconhece esta natureza inclassificável. “Os que escrevem sobre a África, especialmente os que lá nasceram ou viveram, não necessitam da ficção para fazê-lo, pois naquele continente os fatos continuamente sobrepujam qualquer fantasia”, anota Casqueiro.

 As histórias são povoadas de um mistério que parece enraizado na cultura africana, com palavras encantadas e personagens oníricos. Noturna também é a natureza de outros elementos, do longo pesadelo das ditaduras, da agressão colonialista e da resistência protagonizada pelos nativos do continente. Neste universo que habita entre uma realidade mágica e a brutal existência da guerra, as histórias se assemelham aos escritos do angolano José Eduardo Agualusa, em textos mais históricos, caso de “Estação das Chuvas”.

 A escrita de Casqueiro é direta, sem rodeios ou floreios – o tema em si já é o labirinto que a boa literatura exige. Para tal empreitada, contou, como revela no volume, com a ajuda do jovem contista Alan Santiago, autor da elogiada coleção de histórias “A lua de Ur num prato de terra”. O texto da orelha ficou por conta de Mariana Marques, autora de “Transatlântico”.

LIVRO “Muzungu Pululu” Manuel Casqueiro R$ 30

170 PÁGINAS 2011 ARMAZÉM DA CULTURA

 Lançamento às 19 horas, no Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154 – Aldeota). Contato: (85) 3224.9780

DELLANO RIOS EDITOR

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

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