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A escrita como disparo

Jornal O Povo – 21.06.2011

Publicado originalmente em 1977, o primeiro e definitivo romance de Gilmar de Carvalho ganha reedição especial. Recebido com discrição quando do lançamento, Parabélum é retomado agora com a expectativa digna dos clássicos

No livro, escrito quando Gilmar de Carvalho tinha 27 anos, o herói é Cristo, Lampião e Che Guevara em um só personagem (IGOR DE MELO)

No livro, escrito quando Gilmar de Carvalho tinha 27 anos, o herói é Cristo, Lampião e Che Guevara em um só personagem (IGOR DE MELO)

 

As palavras disparam e o texto se faz como vitral. Ao abrir as páginas do romance Parabélum, o leitor é convidado a fruir uma narrativa caleidoscópica. Tessitura difícil, que levou um ano e meio para ser escrita pelo autor Gilmar de Carvalho, bem antes de se tornar professor e pesquisador. Aos 27 anos, Gilmar criou seu primeiro e único romance, como o “último autor” que escreve o “último livro” sobre o “último herói”. “É um livro bem planejado, mas que tem o entusiasmo, a energia de quando se é jovem. Não é livro de maturidade. É uma obra que tem pique, ritmo, agressividade, que é própria da juventude”, explica Gilmar, publicitário, jornalista e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC). Após 34 anos de sua primeira publicação, Parabélum será relançado em segunda edição hoje, às 19h30min, no Armazém da Cultura.

 

O herói do romance é assim mesmo, com “h” minúsculo. Locomove-se no tempo e se projeta em vários espaços, como autoafirma no livro. Ele é messiânico, bandido e rebelde revolucionário. Cristo, Lampião e Che Guevara em um só personagem. “Basicamente sou o somatório de vários heróis narrado a partir de uma perspectiva de desmistificação. Nasci num tempo de iconoclastia em que nada pode ser levado a sério”, diz o personagem, ao ser perguntado sobre o traço principal de seu caráter.

 

Com esta irreverência e provocação, Gilmar queria propor uma superação ou uma tomada de consciência da figura do herói. “Sempre achei que não precisamos de heróis, mas de alguém para organizar o povo, de lutar de forma mais consequente. Esse herói, que ninguém sabe de onde vem e que salva todo mundo, nos poupa de muita coisa e nos deixa em uma situação confortável. Questiono isto, porque o verdadeiro herói é o povo brasileiro”, comenta Gilmar.

 

Além da desconstrução do herói, as múltiplas referências promovem rupturas de espaço e tempo, que misturam o erudito e o popular. “Há de tudo um pouco do que vivi. Algo da minha formação jesuítica, a paixão pelo cordel, a leitura latino-americana que fiz muito cedo”, explica Gilmar. O romance passeia por vários gêneros – desde a prosa poética à entrevista jornalística. “Ponho também elementos da cultura pop, diluindo com uma série de informações, do cinema que via de Godard e de Glauber Rocha, do que lia de Proust e Guimarães Rosa”, pontua.

 

A narração também oscila de registro: uma hora é distanciada em terceira pessoa, depois assume a perspectiva do personagem em primeira pessoa. É quando a escrita se torna ainda mais intempestiva e não aceita concessões. Procura um leitor atento. “Queria ter conseguido interferir mais, desmontar melhor a narrativa, chacoalhar os estereótipos. Tinha o intuito de tentar subverter as expectativas do meu leitor”, confessa Gilmar.

 

O autor enxerga o livro como ato de coragem. “Avalio como sendo algo tão singular, que me inibiu de fazer literatura. Não sei se faria isso hoje. Tem a ver com psicanálise, com meus valores e utopias. No momento em que optei por ficar na academia, abri mão dessa liberdade maior onde a gente tem que se expor”. Em algumas entrevistas, Gilmar disse que, quando se aposentasse, provavelmente voltaria à ficção. Mas a ideia foi deixada de lado. Pelo menos, por enquanto. “Talvez eu ainda não me aposentei direito”, ri.

 

SERVIÇO

 

PARABÉLUM

O quê: lançamento da 2ª edição do livro de Gilmar de Carvalho

Quando: hoje (21), às 19h30

Onde: Espaço Armazém da Cultura (rua Jorge da Rocha, 154 – Aldeota)

Preço do livro: R$ 55

Outras info.: 3224 9780

 

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