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‘Eu sou um eterno amoroso’, diz Edgar Morin

Viúvo inconsolável, o sociólogo Edgar Morin escreveu, em 2009, uma declaração de amor a Edwige, com quem partilhou sua vida durante 30 anos. Este encontro comovente com este eterno amoroso de 90 anos se dá em razão da publicação de uma edição especial inteiramente dedicada ao amor.

A nova coleção (Questions de vie) ousa abordar de frente questões existenciais e universais: o trabalho, a felicidade, a velhice, o nascimento, etc. O primeiro número é inteiramente dedicado ao amor. Sem pudor nem tabu, invocando o cristianismo, a filosofia, a arte, a poesia, a economia, a ciência, textos fundamentais, o humor, a infografia, etc, esta revista espera alimentar muito a inteligência e a cultura de cada um de nós.

Edgar Morin é autor de O Método, em seis volumes, e Meu Caminho, entre outros.

A entrevista é de Chantal Cabé e publicada no sítio da revista La Vie, 04-04-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que você escolheu, com essa idade, se desnudar escrevendo esse livro Edwige, l’inséparable [Edwige, a inseparável]?

Edwige era uma pessoa muito secreta e pudorosa. Com exceção de algumas amigas, as pessoas não a viam senão através das aparências. Então eu senti a necessidade de fazê-la reconhecer. Era uma mulher que exalou uma poesia por sua grande capacidade de admiração. Ela ficava maravilhada com a nossa gata, com a natureza, com as belas coisas da vida. Ela amava a beleza de uma maneira extraordinária e sentia tudo o que é poético na vida. Por outro lado, eu considero que o amor está em um casal quando o outro é fonte de poesia. Se um dos dois deixar de ser isso, não faz mais sentido.

Você dizia palavras amáveis para Edwige?

Às vezes, eu a chamei de Edwigette, mas na maioria das vezes era “meu amor”. Enfim, me incomoda um pouco falar disso… Ela disse que nós éramos dois inseparáveis, referindo-se aos passarinhos que ficam se picando sem parar. É verdade que nós gostávamos de nos abraçar. Quando nos encontrávamos em casa, nos beijávamos. Disse-nos inseparáveis e, ainda…

Finalmente, os intelectuais são como todo o mundo: eles expressam seu amor através de metáforas ou de diminutivos um pouco infantis…

Claro que sim. Nós fazíamos pequenos desenhos um para o outro. Gostávamos de brincar juntos, como crianças. São coisas normais. Montaigne dizia que “cada um carrega em si a condição humana”: é o núcleo comum a toda a humanidade. O fato de ser um intelectual e um escritor dá a possibilidade de expressar com palavras o que todo o mundo vive ou sente.

Qual é, então, essa ligação tão particular que unia você a Edwige?

A relação começou com uma paixão súbita, bem antes que nos uníssemos. Foi em 1961 e nós nos casamos em 1978. Graças a esse livro, Edwige, a inseparável, compreendi o que nos unia tão intimamente, ainda que fôssemos totalmente diferentes. Montaigne dizia de La Boétie: “Era ele, era eu”. Com Edwige, era ela e era eu.

Qual é a singularidade de seu amor filial?

Minha mãe é o amor primordial da minha vida. Ela morreu quando eu tinha 10 anos. Após sua morte, ela se tornou para mim uma espécie de deusa. Ela se chamava Luna e, quando a eu via a lua cheia, sentia a sua presença. Sua perda me deu uma grande necessidade de amor, porque ela deixou um imenso vazio em mim. Quanto ao meu pai, tive um ressentimento contra ele porque, querendo me proteger de fortes emoções, ele simplesmente me ocultou a morte da minha mãe. Ele me privou de lhe dizer adeus. Eu me reconciliei realmente com ele apenas muitos anos depois.

Finalmente, Edwige e você tinham uma coluna associada às suas infâncias?

Exatamente. O pai de Edwige era um médico boêmio que não pagava e que frequentava os artistas. Ele tinha sido expulso de casa pela mãe de Edwige, também ela médica, mas muito burguesa. Edwige sempre me disse que seu pai era um estranho para ela. Entretanto, por duas ou três ocasiões, constatei que alguma coisa a machucava quando falávamos dele. Era por conta de seu caráter fechado: ela escondia esta dor. Tanto que Edwige sempre teve o sentimento que sua mãe não a amava. (…)

Você pensa poder amar de novo?

Sim. Experimento, por outro lado, hoje, um sentimento amoroso por todos, mas esse novo amor não apagará aquele que tenho pela Edwige. Eu descobri em cada mulher que amei um sofrimento da infância. Será por telepatia? É a expressão do olhar que me dá uma mensagem subliminar que com o tempo eu compreendo? De fato, é uma coisa misteriosa, mas eu sou um eterno amoroso. É ao mesmo tempo minha patologia (a perda da minha mãe criou um vazio absoluto) e minha saúde (o amor é a saúde da alma). Às vezes, eu digo a mim mesmo que se trata de uma espécie de doença. Mas, afinal, eu acredito que sou um ser muito simples e normal. Porque é preciso amar, amar outra vez. O filósofo Vladimir Jankélévitch é quem melhor expressou essas coisas ao escrever: “O não-sei-bem-o-que e o quase nada são as coisas mais importantes na vida”.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

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